Village Vanguard: o templo do Jazz (Side A)

Por Thiago Goulart – Jornalista e Professor

No arco que cobre as inúmeras singularidades da história do jazz, há um local determinado em que os músicos profissionais parecem exercer sem amarras o seu trabalho: as casas noturnas. Locais de intensa liberdade criativa, os nightclubs irromperam em Nova Iorque nas décadas de 40 e 50.
Dentre elas, o Village Vanguard se destaca pelo altíssimo nível dos artistas que por ali passaram e ainda passam. Vale dizer também que os discos e performances dos músicos que se apresentaram são memoráveis.
O texto em questão está dividido em duas partes para facilitar o contexto. Duas fontes me foram fundamentais: uma inesgotável, ou seja, os inúmeros discos Live at the Village Vanguard e o livro do fundador da casa Max Gordon, Ao Vivo no Village Vanguard.
Antes de começar, sugiro que ouçam alguns desses álbuns para pegar o clima do ambiente:
. Bill Evans Trio – Sunday at the Village Vanguard;
. Coltrane live at Village Vanguard again!;
. McCoy Tyner plays John Coltrane at the Village Vanguard;
. Wynton Marsalis Septet – Live at the Village Vanguard;
. The Bill Charlap Trio – Live at the Village Vanguard.

Os caminhos trilhados pelo jazz em Manhattan

É nos nightclubs que o jazz nasce e se populariza. Muitos desses lugares ainda estão mapeados na região de Manhattan. Se voltássemos na primeira metade do século 20 seria necessário somente bater perna ao léu pelas ruas.
Antes de 1940 não era comum a concentração de bares em ruas ou bairros, cuja especialidade fosse o jazz. Como catalizadores da força criativa, são nesses ambientes que encontramos o desenvolvimento profissional dos jazzistas, propiciando os contratos de gravação, atenção da crítica, além de impulsionar apresentações em universidades, teatros e festivais internacionais.
A transformação do circuito jazzístico ocorre a partir da década de 40, principalmente na rua 52, entre a 5ª e 6ª avenidas. O Bebop, por exemplo, nasceu ali, com o trompete afiado de Dizzy Gillespie e o sax alto/tenor de Charlie Parker. Era possível vê-los em casas como o Onyx, Three Deuces, Downbeat, Kelly’s Stables, Hickory House, Famous Door, Spotlite e o Jimmy Ryan’s. Todos muito próximos.

Por outro lado, muitos músicos como Ben Webster, Thelonious Monk, Kenny Clarke, Bud Powell, Miles Davis, Max Roach ou Oscar Pittford faziam suas jam sessions em bares no Harlem, como o St. Nicholas, Savoy, Minton’s e o Clarke Monroe’s Uptown House.
A procura por esses bares na região do Harlem era intensa, gerando o resultado natural da equação oferta-demanda: aumento dos preços dos espetáculos. Os proprietários obviamente faturavam alto.
No entanto, aconteceu um revés inesperado. Valores altos não necessariamente significam prosperidade. Refém muitas vezes da caixa registradora, a música e o público começaram a se modificar.
Os devotos ouvintes de jazz cederam lugar, pouco a pouco, a um público estranho e com gostos duvidosos. Além disso, o consumo de drogas por jovens frequentadores do local cresceu gradativamente.
Resultado: ao final da década de 40, os bares começaram seu declínio, mudando a cena jazzística para outros locais.

O templo do jazz

Em seu périplo por Manhattan, o jazz foi gradativamente caminhando para o oeste, ou seja, ambientes próximos da Times Square, na Broadway.
Hoje, porém, o bairro Greenwich Village reúne alguns desses bares ao longo da 7ª avenida. Há um em especial que deve ser destacado dos demais pela longevidade e vanguardismo.
Tornou-se o maior símbolo entre os músicos e espectadores norte-americanos e estrangeiros, considerado, hoje, o templo o jazz: o Village Vanguard.

O endereço é o mesmo desde 1935: 178,7ª Avenida – Sul, Greenwich Village (NYC). O proprietário da Meca é Max Gordon e as peripécias pelas quais passou constam no livro Ao vivo no Village Vanguard.

Gestalt econômica e senso de oportunidade: aprendendo com Max Gordon

Algo importante para pontuar: os donos de clubes noturnos, principalmente no período em que o jazz ainda engatinhava, foram e são peças vitais para a engrenagem dos músicos em início de carreira.
A gestalt econômica aliada aos conceitos estéticos envolvem circuitos e aparatos que vão além dos músicos e da plateia. As relações entre críticos, empresários e agentes, executivos de gravadoras e proprietários de boates formam o bastidor e o sucesso de um jazzman.
Para obter alta voltagem na carreira muitas vezes o artista tem de estreitar vínculos com os proprietários de nightclubs que, à época, dispunham de muito poder para mudar vidas, motivo pelo qual alguns não são benquistos.
Contudo, quando se trata de Max Gordon, a realidade é diferente, já que nunca se ouviu da boca de algum artista maldizê-lo.
Na época do declínio dos bares, Gordon manteve a convicção nos artistas de que dispunha, podendo ter ganhado muito dinheiro com as fraudes do momento que levaram seus concorrentes à bancarrota. Assim, quando o assunto é mercado não adianta romantizá-lo e Gordon sabia disso.
O baixinho insone soube também ter a sensibilidade de captar as mudanças de acorde na perspectiva sonora de músicos como Charles Mingus, Miles Davis e Sonny Rollins. Gordon ao longo do tempo tornou-se parte de uma crônica singular da vida urbana de uma metrópole depois que escurece.
Por mais óbvio que possa parecer, o Vanguard não veio à luz pronto ou numa grande jogada de mestre. Nem Gordon nasceu com o tino mercadológico para fincar sua bandeira e vencer em Nova York.
Vindo da Lituânia, cresceu em Portland (Oregon) vendendo jornais. Especializou-se em Literatura em 1924, no Reed College, momento em que vai para a metrópole tentar algum emprego, vivendo de bicos.
Somente em 1932, quando ainda imperava a Lei Seca e os clientes levavam as suas próprias garrafas de bebida aos bares Max saiu da inércia inaugurando com uma sócia a breve vida do bar Village Fair, pois esta lhe deixara na mão, abandonando-o à própria sorte.
Dois anos depois, resolve investir num imóvel, adotando o nome The Village Vanguard. Por problemas burocráticos, muda-se de local, onde descobre um porão na 7ª avenida, número 178.

Abre o bar, trabalhando como maître e caixa ao mesmo tempo. Este sim é o famigerado local inaugurado em 1935 e que perdura até os dias de hoje.
O mais interessante, por incrível que pareça, é que o Vanguard não começou como uma casa especializada em jazz. Ali, os espetáculos eram diluídos em outras áreas artísticas e protagonizados por poetas, escritores, comediantes, dançarinos e, dentre eles, a música.

Continua no próximo post. Até lá!

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