Uma criança que foi escritora

Quando eu era criança, haviam estantes cheias de livros em minha casa. Não que fossem tão grandes assim, mas, para mim, era tudo extenso e impressionante, embora eu não fosse uma menina tão pequena. Passar as mãos em ásperas brochuras empoeiradas era uma diversão de domingos de sal e de sol.

A infância certamente molda os gostos da maior idade. Ainda olho meus livros, lentamente, começando pelas cores, pelas letras e pelo seu peso. O que tem dentro de tantas palavras? Quem inventou esse emaranhado de letras cheias de peso e de coragem? Escuta. Observo cada gramática, cada espaço escrito, esperando ser convidada para entrar. A timidez vai embora e vamos nos apresentando. Nossos sonhos, nossos finais. Meus olhos seguem as capas e não perdem a curiosidade de saber o que tem em cada página.

Certa vez, me aventurei. Aos poucos anos de idade, em uma madrugada, acordada por algum barulho, não dormi de novo. Quando isso acontece, qualquer pirralho ligaria a tevê para pegar no sono. Mas se você divide um quarto, não pense em acordar irmãos mais velhos. Enfim, para resolver minha insônia infantil, busquei um caderno. Quando se é caçula, a madrugada não é muito confortável. O silêncio é ensurdecedor. Olhamos para toda aquela noite esperando surgir alguma coisa, além de pernilongos.

Poderia-se buscar, também, um caminho mais fácil do que aquelas folhas em brochura. Calculei todas as passadas para chegar ao destino final: o quarto dos pais. Sem ninguém nos notar, além dos pernilongos. Eles sabem que estamos fugindo.

Aquele dia, arrisquei um perigo inocente. Até poderia ter encontrado abrigo entre as pernas maternas e os cobertores dos meus pais. Entretanto, preferi um caderno usado. Abri-lo. Páginas vazias. Linhas curiosas e sedentas de um lápis qualquer. Fiz,então, o que não dava para esconder: as palavras.

Em minha inocente cabeça infantil, pensei porque não inventar uma história inteira vivida e aproveitada por uma menina de coroa roxa? Pintei, Criei, Encenei. E surgiu. Ela não tinha nome. Tampouco respostas. Lava o cabelo com frutas e ninguém sabe de onde veio a Coroa. A verdade é que ela queria mesmo inventar por aí. Inventar caminhos inteiros, conhecer o alto mar.

O silêncio preenchia. E os olhos bem abertos. De repente, a madrugada fica admirável. Deixei de lado a fuga. Não lembrava mais do tempo. Só queria saber sobre aquela coroa. As horas eram minhas. O escuro é meu. O caderno é meu.

A verdade é que, naquele dia, o caderno velho e a menina de coroa roxa foram o meu mundo. A minha história. Memórias de encontros improváveis. E não foi qualquer coroa. Foi roxa. Como as cores que eu sempre vi contornando o mar azul. E roxo. Púrpura exagerada. Poente fraquinho. De tardinha, ali ninguém mais sabia o que era céu, o que era água. Não importava. Só importava a coroa. Coroa de Areia. De sol. De maresia. A menina chorara com o vento que batia no seu rosto, com a água invadida e a areia descontrolada percorrendo cada dedinho inquieto. E fazia o vestido rodar.

Quando fazia maré alta, pequenos movimentos, que vinham de longe, quebravam na areia com barulho de percussão. Era a banda chegando. A Banda toda passando cantando coisas de amor. Ah,se eu soubesse da imensidão da sinfonia aos meus olhos. Senhora dos Ventos, dos Destinos e das Vontades. Senhora? Menina. Rodava. De braços abertos, e os pés escondidos na areia, convidando todo peixe, todo sal para ser castelo. Castelo grande que coubesse todas suas invenções, desenvolturas e perguntas. Quantas perguntas.

Foi sonhando que acordei. Dormi com o livro comprimido no meu corpo grosso e pirralho. Nunca terminei a história. Nunca encontrei o caderno. Já a menina da Coroa Roxa, nunca deixou de ser curiosa. E nem de ser menina.

Uma crônica por Giovanna Baccari (@gio__eu)

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