UM SALVE, LUIZA!

Na última semana, mais um assunto, alçado no Brasil atual como “polêmico”, tomou conta das timelines das mais diferentes redes sociais: o anúncio da Magalu, grande empresa do varejo nacional, para a abertura do programa de trainees exclusivamente para pessoas pretas.

Em pouquíssimo tempo, começaram os shows de horrores de sempre. A extrema-direita brasileira não apenas nega o racismo como enaltece a monarquia cúmplice dos escravocratas e até recruta lacaios que elogiam a escravidão. Não podemos nos esquecer que o presidente da Fundação Palmares disse recentemente, em entrevista, que a situação do negro escravizado nas Américas era melhor que na África livre. Sem contar que minimizam os heróis simbólicos do movimento negro enquanto enaltecem genocidas – como bandeirantes, por exemplo.

Roger, músico da chinfrim e decadente Ultraje a Rigor e popstar da extrema-direita protofascista, chegou a publicar um tuíte – repostado pelo Eduardo Bolsonaro, chanceler paralelo do governo do pai e deputado federal nas horas vagas – onde compara o oferecimento do programa de trainees do Magalu ao oferecimento de uma vaga de empregada doméstica exclusivamente a pessoas pretas. Se não for fruto de extremo mau-caratismo intelectual é certamente fruto de grave problema cognitivo.

Só um tipo de pessoa é contra um processo seletivo como este que o Magalu está oferecendo: o racista.

A questão é que o racismo brasileiro é tão estrutural e enraizado que grande parte das pessoas (brancas) não enxerga seu lugar de privilégio e é facilmente e convenientemente convencido pelo mito ideológico do racismo reverso.

Basta olhar ao seu redor:  a maioria dos cargos de baixa remuneração e baixa posição no organograma é ocupada por pessoas pretas e pardos – esses um pouco em maior escala que aqueles. Enquanto isso as gerências e diretorias quase sempre são brancas (além de masculinas). Em uma rápida pesquisa na internet é possível verificar dados e também alguns programas de trainees cujos selecionados mostram pouca ou nenhuma heterogeneidade étnica.

O nome é racismo estrutural.

Por isso mesmo, ao se falar em ser antirracista é muito fácil achar um absurdo quando se vê alguém sendo chamado de “macaco”, mas a adesão ao antirracismo já é muito menor quando é preciso criticar a ação estruturalmente racista dos aparelhos de segurança pública, da justiça, do Estado. Por fim, a adesão e o compromisso em ser antirracista perde quase a total adesão de fato quando o ponto é questionar os nossos privilégios de brancos.

Muitos dos que se levantaram contra o programa da Magalu disseram: “e se fosse o contrário?”.  Esse é exatamente o ponto. É o contrário. E é tão invisibilizado e naturalizado que a maioria sequer percebe – ou se percebe ignora.

Se o Brasil fosse de fato um país de democracia racial, pelo menos 54% das salas de aulas teriam alunos e professores pretos. O mesmo para consultórios, fóruns, cargos eletivos, cadeiras de magistraturas, diretorias de empresas… O mesmo estendido para gênero e para a questão LGBTQI+ que também têm dificuldades de espaços de representação. Mas o racismo estrutural é a base de toda a desigualdade.

Se o Brasil fosse uma democracia racial talvez você não tivesse seu emprego – e nem eu o meu. Quando concorremos pelas vagas no vestibular, no concurso, na entrevista de emprego não concorremos com todos em pé de equidade. Racismo se trata também de reserva de vagas e espaços de poder para a branquitude. Nós concorremos para vagas com um percentual muito pequeno da sociedade, pois o grande percentual está em um processo de exclusão estrutural, relegados aos empregos que sobram, aos subempregos e ao não emprego. Negar a existência desse racismo – assim como do machismo e da homofobia – é garantir mais facilidade aos espaços de poder a nós, homens brancos.

Se concorrêssemos com todos e todas em pé de equidade teríamos que ser muito melhor do que somos para ocupar a mesma vaga que ocupamos hoje.

E é aí que os aliados na luta antirracista minguam. Quem é de fato aliado na luta antirracista tem que estar disposto a concorrer com quatro, cinco, seis vezes mais gente competente pela mesma vaga na universidade, concurso público, emprego privado. Por essa razão que a política de cotas é na verdade uma política anticotas, uma vez que a grande cota que sempre houve no Brasil foi a cota da branquitude e a cota da classe social – antes da reserva de vagas nas universidades 100% das vagas eram reservadas àqueles que podiam pagar as melhores escolas, a maioria brancos de classe média, classe média alta e ricos, com exceção  de um ou outro que vinham com o potencial acima da média.

Todavia a muito jovem política afirmativa de cotas raciais nas universidades não foi acompanhada de uma equivalente no mundo do trabalho, que continua atravessado pelas consequências da escravidão, que se foi não faz muito tempo o Brasil.

Luiza Trajano acerta de novo. Eu digo “de novo” por que ela, que é a mulher mais rica do Brasil, já mostrou-se simpática a medidas progressistas, foi contra a imoral manobra de 2016, não subiu no palanque de Bolsonaro em 2018 alegando “ser pelo Guedes” e no estourar da pandemia de 2020 garantiu que não reduziria o salário do seu pessoal de funcionários, dando tranquilidade aos seus empregados para cumprir a quarentena no momento inicial de maior tensão social.

A esquerda, porém, também tem os seus terraplanistas sociológicos. De repente, elogiar a iniciativa do Magazine Luiza virou coisa de “liberal”. De inimigo da “revolução brasileira”.  “Ela só quer mídia”, dizem eles. A esquerda brasileira encontrou também a sua turma de influencers de Youtube e Twitter que despejam um marxismo bem panfletário, como aquele que consta nos manuais de formação partidária para movimento estudantil secundarista e que apelam para respostas fáceis para questões complexas.

Recentemente as bolhas de esquerda do Twitter pararam para debater a relevância de um blogueiro e youtuber que expressa um marxismo lá do século XIX, antiquado e superado, mas que acabou chegando ao Caetano. Quando não é isso, é discutir o “cancelamento” de um aqui ou outro ali – quase sempre o cancelado ou cancelada é alguém que está sob algum holofote. Entre debates do pronome neutro e da esperança vã do Lula nos salvar em 2022, a esquerda tuiteira parece sofrer da síndrome da terra do nunca – não conseguem sair da adolescência política e superar as discussões do Centro Acadêmico, que apesar  de terem sua importância para nós, pouco dialogam com o trabalhador que não consegue pagar o arroz. Esse segmento da esquerda ainda não entendeu que sem empresários progressistas, sem juízes progressistas, sem militares progressistas (sim, eles existem!) nós não vamos conseguir superar esta conjuntura de avanço ultraconservador que está posto.

Sem a fantasia da Revolução Brasileira, improvável na curta duração, trabalhemos com o otimismo da vontade e o pessimismo da razão: o capitalismo é o sistema que está posto e anda mais forte do que nunca em uma guinada para esgotar direitos trabalhistas. Toda união para defendê-los ou para emancipar grupos historicamente oprimidos deve ser considerada válida. Enquanto nosso campo gasta energia com miudezas e devaneios teóricos, Bolsonaro alcança 40% de popularidade por que a extrema-direita encontrou um diálogo (ainda que mentiroso) que fala como o cotidiano do homem real.

Quantos Bolsonaros terão de vencer para que gente lembre do que disse Ulianov, “um passo atrás, para dar dois à frente”?

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