#Opinião – Um novo ensaio sobre outra cegueira

Em sua aclamada obra “Ensaio sobre a Cegueira”, publicada em 1995, José Saramago, escritor português, exorta-nos sobre o privilégio, mas ao mesmo tempo o drama, de termos olhos quando os outros os perderam.

Na ficcional obra, uma “epidemia” de cegueira se espalha pela sociedade, as pessoas são aquarteladas em um manicômio pelo governo para cumprir quarentena e apenas uma mulher não é acometida pelo mal.

Sob uma certa perspectiva, a cegueira é a metáfora das tragédias humanas. É o racismo, o sectarismo religioso e ideológico, a intolerância com as diferenças, a ignorância política e intelectual, o abuso de poder e tantas outras desventuras.

No nosso mundo real, fora da ficção, deparamo-nos com ensaios cegos de pessoas que vêem, mas não podem ou, pior, não querem enxergar. O ato de ver pressupõe um processo físico e biológico que não perpassa necessariamente pelo crivo da racionalidade e nem mesmo da emoção. Já enxergar é agregar subjetividade, inteligência e sensibilidade ao que se vê.

Nesse sentido, Saramago, seguramente, foi um visionário. Conseguiu, em 1995, antecipar a história. Não o fim dela, mas o seu curso inevitável. Previu que a imaginada maturidade pós moderna do século XXI resultaria, na verdade, em uma grande cegueira coletiva e autodestrutiva. Prenunciou a hecatombe moral da humanidade, com sacrifícios irreparáveis da dignidade, da empatia e do bom senso.

Opiniões radicais, perigosas, exageradas, absurdas e, muitas vezes, assustadoras estão se viralizando. Por outro lado, teorias científicas irrefutáveis, memórias históricas coletivas, avanços sociais e humanitários, evoluções políticas, consensos morais estão sendo sumariamente ofuscados por uma cegueira que se espalhou como uma doença demasiado contagiosa que, embora sem explicação, talvez possa ser curada.

Nessa profusão de cegueiras, muitos paradigmas estão sendo (re)inventados a serviço do caos. Movimento estudantil é visto como mera marcha esquerdista entorpecida de ideias e outras “drogas”. Manifestações de oposição ao status quo e às arcaicas e rígidas estruturas políticas e sociais são sinais de vandalismo. Moral e ético é seguir rigidamente as leis, é obedecer as regras sociais, é assumir doutrinas e princípios sem qualquer contestação. Isso é perigoso e letal.

Lamentavelmente, a cegueira acometeu até mesmo alguns grupos que, outrora, eram considerados imunes como movimentos sociais, étnicos e de gêneros.

Ainda há o cego que finge enxergar. É o cego hipócrita. Esse é o pior! Aquele que diz defender o feminismo apenas para ser afagado pelas mulheres. Aquele que se diz contra o racismo para fazer palanque político e se esconder atrás do seu verdadeiro Eu. Essa é a classe mais desprezível e perigosa. Pessoas oportunistas são frouxas, falsas e articuladoras. É preferível a inconveniência dos ignorantes à conveniência dos malditos manipuladores.

Engana-se quem pensa que aqueles que não foram atingidos pela cegueira são privilegiados. Enxergar não é uma vantagem nem tampouco um conforto, mas uma condenação. É sofrível, torturante e, por vezes, desanimador.

Em Saramago, a única mulher não “contaminada” é punida pela não cegueira.

Assim, a cura para tudo isso está justamente nas mãos, ou melhor, nos olhos daqueles que ainda conseguem enxergar. Não é fácil ver amigos queridos, familiares e até mesmo alguns de nossos maiores referenciais no processo de formação de opinião, como professores e intelectuais, perturbados pela cegueira. Todavia, é imperativo que os conscientes atuem a fim de evitar um apocalipse moral.

Em meio a este cenário de impressionante balbúrdia, parece-me que, ao contrário do manicômio da obra de Saramago, que agravou a cegueira das pessoas, a escola figura como fundamental laboratório da cura. Lugar de exercitar o intelecto, de aprender a respeitar as alteridades (tomando emprestado um termo da Antropologia), de construir cidadania e de destruir e reconstruir paradigmas, a escola libertadora está iluminada pelos livros cheio de “coisas” importantes escritas e de jovens com espírito de mudança.

Como já diria sabiamente o próprio Saramago, “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. Procurar conhecer o que realmente somos, e não o que parecemos ser, pode ser libertador.

Saramago que me conceda o seu perdão post mortem, mas vou lhe insultar: seu GÊNIO!

Você pode estar se perguntando: gênio é ofensa?

Em tempos em que se impera o contrassenso, é preciso se opor à lógica para se fazer compreendido.

*Davidson Abdulah é graduado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pós-graduado lato sensu em História e Ensino também pela Universidade Federal do Espírito Santo. Realizou alguns trabalhos como historiador na área de Memória Empresarial, inclusive com livro publicado.

Em 2020 completa vinte anos em sala de aula como professor de História na rede privada de Vitória. Recentemente foi homenageado pela Câmara Municipal de Vitória pelos serviços prestados em favor da educação neste mesmo município. Tem a música como terapia e a fotografia como hobby.

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