#Opinião – O que a história do incêndio de Roma pode nos ensinar sobre a questão da Amazônia?

A maioria dos historiadores acredita que o incêndio que destruiu Roma surgiu perto do Circo Máximo, um hipódromo romano. Nas redondezas, havia uma feira: centenas de cubículos de madeira ocupados por astrólogos, prostitutas, cozinheiros, que usavam fogo para trabalhar ou iluminar o ambiente.

Na noite de 18 ou 19 de julho do ano de 64 d.C., o calor do verão em Roma era intenso e as chamas de um desses cubículos se alastraram. Por causa do clima quente e da enorme quantidade de madeira, o fogo se espalhou, atingindo lojas de materiais inflamáveis da área.

A área mais povoada de Roma era ocupada por precários prédios de até cinco andares, feitos de madeira, tijolos e alvenaria. O fogo teria se disseminado primeiro por esses prédios e, em seguida, teria avançado para os setores mais ricos, destruindo as sólidas construções onde vivia a nobreza patrícia.  Horas depois do início do fogo, uma gigantesca nuvem de fumaça cobria toda a cidade. Pessoas em desespero que tiveram suas casas arrasadas e testemunharam a morte de parentes ao invés de fugir preferiram se suicidar, jogando-se às chamas.

E o césar nessa História? Nero, segundo relatos, teria subido ao teto de seu palácio e começado a tocar sua lira, enquanto apreciava os efeitos do fogo. Outros relatos dizem que Nero foi pressionado a agir e chegou a participar das brigadas para conter o incêndio – e que as chamas destruíram até o seu palácio. O fato é que Nero culpou e ordenou perseguição aos cristãos – àquela época opositores ao Império – acusados por ele de serem os responsáveis pelo incêndio. Muitos foram capturados e jogados aos leões. Além deste episódio, outros colaboraram para fama de violento e desequilibrado do imperador. Nero, em 55 matou o filho do ex-imperador Cláudio. Em 59, ordenou o assassinato de Agripina, sua própria mãe.

Ainda que Nero não tenha sido diretamente culpado pelo incêndio, a lenda de que ele pôs fogo em Roma se espalhou devido a suas atitudes públicas de loucura e violência, além de sua inoperância administrativa frente à tragédia.

Então pensemos um pouco mais: o que a História de Nero pode nos ensinar em 2019?

O governo Bolsonaro é composto por três áreas explícitas (além de uma oculta…) bem definidas – como expliquei em meu livro A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro: a ala militar – responsável majoritariamente pelas áreas infraestruturais e defesa; a ala jurídico-econômica – pautado pela agenda de lavajatista de Moro e a política econômica ultraliberal de Guedes; a ala teocêntrica – composta por ultraconservadores seguidores do astrólogo, autointitulado professor, Olavo de Carvalho, pastores evangélicos delirantes e católicos opus dei que querem seguir a bíblia ao pé da letra. Nesta ala também se encaixam dois dos três filhos do presidente, assim como o próprio Bolsonaro.

Depois de negar o aquecimento global – taxado de teoria marxista -; negar dados do INPE e ONU e negar até mesmo a esfericidade da Terra, a ala conspiracionista do governo encontrou, como Nero, alguém para culpar. Muito apoiado pelo agronegócio e pela atividade mineradora, assim como abertamente contrário à manutenção da política de demarcação de terras indígenas, o governo decidiu que a culpa pelos incêndios eram das ONG´s, levando à prisão arbitrária, na última semana, de quatro jovens paulistanos, voluntários como brigadistas em Alter do Chão. A situação patética, que no primeiro semestre culminou em atritos com o presidente da França, agora envolveu até mesmo o ator Leonardo di Caprio, acusado pelo próprio presidente de financiar as queimadas.

Como se já não fosse ridículo o suficiente, vários apoiadores do presidente se colocaram a compartilhar mais essa fake news. Na nossa pós-democracia, a pós-verdade é uma regra. Além de ultrapassar o limite do ridículo, a turma que nos governa também notadamente não sabe o poder simbólico do discurso, que como nos explicou Slavoj Zizek, “tem o signo de poder”, tendo que, ao menos, parecer real.

Por mais que os incêndios na Amazônia sempre tenham ocorrido, embora em maior escala nos últimos meses, ao se posicionar ao lado de quem incendeia e grila terras, dizendo que ambientalismo é coisa de “socialista vegano”, o presidente dá às potências o argumento que sempre precisaram para tirar do Brasil o controle da floresta.

Um último ponto: Nero não continuou popular por muito tempo. Os loucos têm seu prazo de validade limitado à destruição que eles próprios causam e que se torna o principal remédio para curar os infectados por essas visões retrógradas de mundo.

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