#Opinião – Lucro Verde

Nesses tempos de juros baixos, Selic prestes a chegar à marca dos 4% (menor valor já alcançado por essa taxa desde a sua criação), poderíamos pensar em lucro verde advindo da moeda americana, que acabou de atingir sua marca histórica de alta nessa semana.

Entretanto, não menciono aqui esse tipo de dividendo – não que eu não me interesse por isso, todo humano habitante desse planeta que não faz parte da lista da Forbes deveria sim se interessar e aproveitar os melhores momentos dos investimentos financeiros que mais se adeque ao seu bolso.

Pensando em outro tipo de investimento, gostaria aqui de refletir sobre um paradoxo que não me desce redondo, principalmente por morar em um país que possui aproximadamente 30 milhões de hectares de pastagens de baixa ou muito baixa aptidão agrícola. Áreas essas com solo empobrecido, apresentando muitas vezes profundos sulcos que não permitem uma atividade agropecuária de baixo investimento, grande perda de biodiversidade faunística, regime hídrico descompensado, isso sem mencionar diversas outras adversidades. E, para corroborar com minha perplexidade, resido no Espírito Santo, o estado brasileiro que mais desmatou no biênio 2017-2018, ficando na contramão do desempenho nacional, que apresentou uma queda no desmatamento de 9,3%, em relação ao levantamento de 2016-2017 (INPE/SOS Mata Atlântica). Se temos áreas tão improdutivas, por que não reflorestá-las ao invés de desflorestá-las?

Somos capazes de imaginar o que os danos provenientes desses desflorestamentos podem causar ao clima do país? Do planeta? Levando somente em consideração as toneladas de água lançadas pelas árvores na atmosfera, que se convertem em chuva e abastecem mananciais a milhares de quilômetros ao redor das florestas. Como exemplo, toda umidade produzida pela Floresta Amazônica emana pelos ares e influencia todo o clima da América do Sul. Podemos ter uma breve ideia das catástrofes advindas devido aos desmatamentos: alteração no ciclo hidrológico, solos compactados que não absorvem a água das chuvas, inundações, desmoronamento de encostas, prejuízos para a agricultura, alagamentos em cidades e centenas de outros infortúnios que cansamos de presenciar nos últimos anos.

Em contrapartida, locais que possuem florestas remanescentes apresentam solos protegidos, chuvas regulares, clima mais ameno, práticas agrícolas menos afetadas por pragas, além de outros benefícios florestais, como o crédito de carbono, geração de energia, turismo, lazer, e muitas outras atividades essenciais para a nossa economia.

Pensando nessas e em outras milhares de benesses provenientes das floretas, poderíamos imaginar o quanto seria vantajoso plantar árvores nas áreas degradadas mencionadas anteriormente. Por que então o pequeno produtor rural não se convence de que uma floresta nativa restaurada proporciona chuvas mais regulares, águas mais abundantes, rios menos assoreados, fauna mais diversificada, melhoria no equilíbrio ecológico, dentre outros serviços ambientais. Por que não utiliza as pastagens abandonadas para gerar lucro? Plantar floresta causa um impacto econômico benéfico para toda a sociedade.

Florestas nativas plantadas, além de melhorar o clima, também podem fornecer frutos, sementes, fibras, resinas, borracha, madeiras e diversos produtos florestais não-madeiráveis economicamente importantes. Somado a esses fatores devemos pensar ainda que uma propriedade rural com floresta em pé tem maior valor econômico, uma vez que o solo estará protegido, o regime hídrico equilibrado e a biodiversidade presente.

Então, se é tão vantajoso plantar florestas, por que a minoria dos pequenos agricultores e dos grandes empresários rurais faz isso? Se as taxas de investimento em renda fixa não estão muito animadoras, por que não investir em florestas nativas plantadas? Apesar de vários estudos apontarem para as vantagens de se plantar florestas, muito pouco tem sido feito com esse propósito.

Podemos reconhecer a existência de alguns modelos de reflorestamento no país, mas a grande maioria ainda se utiliza de espécie exótica (Pinus e Eucalyptus, por exemplo). Utilizar plantas exóticas tem a vantagem de se conhecer o que está se plantando. Essas espécies já são há muito tempo conhecidas quanto ao seu potencial de crescimento e desenvolvimento. As nativas utilizadas como produto florestal comercial ainda precisam de muitos estudos. É aqui que entram as pesquisas acadêmicas, que muito necessita de apoio governamental e de investimentos da iniciativa privada. O argumento também utilizado como empecilho de se optar por árvores nativas é a burocracia ambiental para se obter licenciamento para o plantio. Isso já está se tornando coisa do passado. O novo Código Florestal Brasileiro, assim como Lei da Mata Atlântica, conceberam um sistema mais simplificado para a exploração de madeira nativa oriunda de florestas plantadas em área produtivas, desde que não sejam em Áreas de Preservação Permanente (APP) nem em Reserva Legal (RL).

Durante a 23ª Conferência das Partes (COP 23) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), o Brasil assumiu a meta de reflorestar 12 milhões de hectares de áreas degradadas até 2030. Muito há de se fazer ainda. Hoje a economia florestal brasileira responde apenas por 1% do PIB nacional. Isso pode ser mudado, principalmente porque temos a vantagem de ser um país com grandes biomas florestais, que podem fornecer mudas para reflorestamento puro ou em consorciamento, como nos Sistemas Agroflorestais (SAFs), que vêm apresentando grandes resultados em vários estados brasileiros.

Assim, concluímos que plantar floresta com espécies nativas traz todo um benefício à comunidade, além de preservar a biodiversidade local, diminuir os danos provocados pelo efeito estufa, fornecer abrigo à fauna e, ainda melhor, promover o estoque de carbono em forma de madeira, que poderá ser certificada e ter alto custo no mercado de Commodities. Quem plantar florestas nativas agora estará deixando uma boa herança viva para seus descendentes. Em tempos de retorno ínfimo com os investimentos financeiros de renda fixa, o que poderia gerar mais lucro do que uma aplicação ambientalmente correta e sustentavelmente econômica do que plantar sua própria renda vitalícia em forma de árvore?

*Luciana D. Thomaz é Professora Titular da Universidade Federal do Espirito Santo (Dept. de Ciências Biológicas). Doutora em Biologia Vegetal com Pós-doutoramento em Desenvolvimento Rural Sustentável e Especialista em Educação Aberta e à Distância.

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