Olhares na Quarentena – ensaio sobre como percebemos o mundo e nós mesmos em momentos de crise

Quando me vi preso, me vi livre. A prisão imposta pelo vírus que surgiu na nossa distopia libertou bilhões dos grilhões invisíveis da rotina. O sistema também pode parar. A sensação que tenho é de que o mundo não será mais o mesmo. Posso estar exagerando, motivado por um devaneio romântico ou um vício das (minhas) excessivas humanidades, mas parece que a prisão representou um despertar. Um reset.

Mescla-se a sensação de estar sempre atrasado – com o relógio biológico fazendo você acordar com o coração acelerado de quem tem um compromisso perdido –  com a sutil confusão do tempo da natureza se impondo sobre o tempo da máquina. Aos poucos, vamos perdendo a fixação pelo dia da semana em que estamos, pelas horas que o relógio marca.

Aos poucos, vamos entendendo que podemos fazer os serviços que outrora delegamos a outras pessoas, que compramos coisas das quais não precisamos, que vamos a lugares aos quais muitas vezes nem queremos ir, que podemos trabalhar de maneira diferente.

Ah, mas dá uma saudade da rotina… Como quem tem saudade da caverna – na anedota de Platão. Dá um frio na barriga também: a incerteza que temos é sobre como essa pausa no sistema fará com que ele também se reinvente. O sistema é composto por pessoas. Pessoas reinventadas depois que isso passar. Como ele precisará de nós, reles mortais? Pagaremos nossas contas ou será que o espírito do tempo – zeitgeist – se abaterá sobre nós como o tsunami que varreu as rotineiras vidas no início do século passado? Será que, de século em século, uma espécie de sistema imunológico do planeta faz sua parte, garantindo a eliminação do parasita – nós, que sugamos os recursos da natureza e de outros de nós, ou que vendemos nossas forças de trabalho para que o sistema sugue?

Como sairemos dessa? Como estamos encarando a nossa solidão? Quando buscamos dentro de nós o que vemos? Alguns se preocupam com a perda do ano estudantil, outros estão preocupados com a saúde financeira ou atordoados pelo estado de acefalia política do Estado nacional ante essa crise. O que as pessoas têm a dizer desses quinze ou vinte dias de cárcere de luxo?

Eu me voltei para a minha bolha e recorri a quem tem algo a dizer e a quem compartilha as mesmas agonias, ou outras. Eu não podia escrever esse texto sozinho, já estamos sozinhos demais…

Heron Miranda é físico, mestre em Filosofia e escritor e está aflito com a marcha da ignorância que a sociedade está fazendo. Para ele:

“Em tempos de crises (plurais mesmo), assistimos a uma série de acessos e derrocadas – como se costuma dizer, tudo junto, misturado, ao mesmo tempo. E, no epicentro dessas mudanças, está, a meu ver, a anulação do intelectualismo. Claro que, para cada pessoa, o foco desses dramas pode conjurar outras importâncias, mas, para um intelectual, nada contrafaz mais do que o afeto à sua matéria-prima, a inteligência. Em seu livro “O valor da Ciência”, de 1905, o físico francês Henri Poincaré já chamava a atenção para o fato de que o anti-intelectualismo, enquanto tentativa de validar-se como maneira de interpretar a realidade, encerra-se nele mesmo, haja vista que o que se pode dele transmitir são apenas gritos de negação e de entusiasmo. Tenho observado, hodiernamente, que está também condenado a ser intransmissível, a não ser, claro, que esteja miseravelmente disfarçado de um vírus. Eis a tragédia que teremos de atravessar.”

Jeane Martins, doutoranda e professora de Direito do Trabalho, destaca, nessa quarentena, que “o vírus nos fez enxergar pessoas invisíveis” e evoca a emergência de uma cultura solidária. Segundo ela:

“Convivemos diariamente com pessoas responsáveis pela realização de várias tarefas necessárias à nossa sobrevivência: quem limpa os lugares frequentados por nós; aquelas que pilotam motocicletas e entregam nossas refeições, produtos, documentos; as que atuam nos hospitais, tratando as nossas doenças; as responsáveis pelos atendimentos nos supermercados, farmácias, além de outras. Essas pessoas sempre foram fundamentais, porém, invisíveis, e, vejam vocês, um vírus, causador de tanta dor e sofrimento, colocou um facho de luz sobre elas, obrigando-nos a enxergá-las. Muitas não usufruem dos direitos fundamentais trabalhistas, assegurados pela Constituição da República de 1988, sendo, de forma romantizada, chamadas de “autônomos”, “empreendedores”, apesar de, em alguns casos, enquadrarem-se perfeitamente como sujeitos de uma relação de emprego. Em tempos de Covid-19, essas pessoas correm risco, seja pelo contato com outras pessoas ou porque muitas dependem de transporte público. Então, não basta o rompimento da invisibilidade. Proteja-as, ficando em casa se você puder.”

Roberto Martins é historiador, vereador de Vitória e pré-candidato a prefeito da capital do Espírito Santo, pela Rede Sustentabilidade. Ele vê na quarentena uma possibilidade de refletir sobre a reforma eleitoral e analisa que:

“O mundo convive hoje com essa terrível pandemia, com efeitos humanos e econômicos catastróficos. O remédio inevitável da quarentena comprometerá, por tempo ainda indeterminado, as relações humanas necessárias não só para o pleno funcionamento da economia, mas também das eleições. Neste ano, a eleição para renovação dos Prefeitos e Vereadores está prevista para outubro, com início do período eleitoral ainda em agosto. Porém, o preparo do processo eleitoral começa muito antes, passando pelas conferências eleitorais dos partidos e a convocação e treinamento de pessoal pelos Tribunais Eleitorais, a partir de junho. Considerando que não se faz eleição sem contatos presenciais, muitos especialistas já apontam para a inevitabilidade da suspensão das eleições em 2020. Por conseguinte, alguns já propõem a transferência das eleições para fevereiro ou março de 2021. De quebra, isso poderá resultar na utilização da verba eleitoral de 2020 no combate aos efeitos do coronavírus. Mas aí sugiro a seguinte questão: se realmente é inevitável a prorrogação dos mandatos dos Prefeitos e Vereadores, não seria melhor aproveitar a situação para unificar o calendário eleitoral municipal, estadual e federal em 2022? Tal proposta já foi tema de debates no Congresso Nacional e traria dois grandes benefícios ao modelo eleitoral brasileiro: a evidente redução dos gastos, visto que passaríamos a ter eleições de 4 em 4 anos, e o fim do trampolim político eleitoral, dado o fato de que muitos políticos candidatam-se a outros cargos no meio de seus mandatos parlamentares, com a segurança do retorno à cadeira, o que estimula excesso de candidaturas e, por outro lado, facilita a perpetuação do carreirismo político. Noutras oportunidades, a proposta de unificação do calendário eleitoral esbarrou justamente na pressão eleitoreira dos grupos políticos que almejam disputar as eleições sem riscos. Agora, perante a ameaça real de adiamento das eleições, poderemos fazer mais do mesmo com uma eleição em 2021 e outra em 2022, ou começar a virar essa página do carreirismo político”. 

Brenda Fontana tem 23 anos, é analista internacional e vice-presidente da Juventude Socialista do PDT-ES. Em sua muito bem aproveitada juventude, Brenda vê na quarentena um combustível para a luta política contra a anomia administrativa que nos rege em plena crise pandêmica:

“No dia 20 de março, dei-me conta de que minha vida já havia mudado. Os meus planos de estudo e trabalho para 2020 precisariam ser adiados ou talvez nunca acontecessem. A resposta do governo federal só me deixava mais inquieta e na primeira semana de quarentena eu estava consumida pela ansiedade e a desesperança. Conforme minha  indignação crescia, esses sentimentos viraram força e motivação para lutar pelo meu país. Tudo é política e agora, mais que nunca, é tempo de fazer política. Meu período de isolamento social, que hoje (30/3) faz 15 dias, não será de ostracismo. Todos os meus dias são e serão destinados a tocar as mentes e os corações dos jovens brasileiros para que, no futuro, a realidade seja mais digna, justa e as pessoas não precisem escolher entre morrer de fome ou por conta de algum vírus”.

Davidson Abdulah é historiador, especialista em História do Brasil, autor do caderno virtual Tenda das Ideias, músico e entusiasta de fotografia. Unindo seu olhar de cientista com sua sensibilidade artística, ele analisa assim o período:

“Os ruídos provocados pelo coronavírus têm abafado uma grande revolução silenciosa. O mundo nunca mais será o mesmo quando esta pandemia passar e a mídia voltar a noticiar fatos corriqueiros e banais, como os escândalos de corrupção no Brasil. As pessoas estão esperando ‘tudo voltar ao normal’ e isso jamais acontecerá. A Covid-19, mais do que um patógeno biológico, tornou-se um vírus tecnológico em escala global, que deixará marcas incontestáveis na forma como a humanidade se relaciona, social, econômica e culturalmente. O reconhecido sociólogo italiano, Domenico de Masi, há uma década, vem defendendo que o trabalho remoto, ou teletrabalho, é o trabalho do futuro. Com o avanço das tecnologias de comunicação em rede, torna-se cada vez mais possível e viável executar trabalhos sem sair de casa, por meio de dispositivos eletrônicos como computadores, tablets e smartphones. Atualmente, um terço da força de trabalho no mundo é composta por operários, outro terço por trabalhadores que exercem atividade intelectual, mas com funções executivas (bancários, secretários, setores administrativos das empresas) e o último terço por trabalhadores com funções criativas (cientistas, jornalistas, profissionais liberais, escritores). Dessa maneira, dois terços da humanidade ainda exerce trabalho repetitivo, cansativo e escravizador. De acordo com Masi, o teletrabalho incluiria boa parte dos trabalhadores intelectuais, mas que ainda executam exaustiva rotina, no grupo dos intelectuais criativos. Cotidianamente, o funcionário de um escritório de Contabilidade, depois de um longo e penoso dia de trabalho na empresa, aventura-se no transporte público por 1 hora e 30 minutos até chegar à casa ou se desloca em automóvel próprio, arrastando uma tonelada de aço e borracha pelos espaços públicos apertados, barulhentos e perigosos, além de carregar seu estresse do dia para dentro de casa. Com o teletrabalho, esse mesmo funcionário pode exercer suas funções a partir de um computador em casa, podendo acordar mais tarde, evitar o estresse da vida urbana, tornando-se mais produtivo, mais feliz, e ainda teria tempo excedente para se tornar criativo. Imagine o alívio para os espaços públicos e para o meio ambiente se milhares de pessoas passassem a trabalhar no conforto de suas casas. Claro que esta é uma visão idealista do processo. Uma série de questionamentos devem ser considerados, como: será que o tempo ocioso proporcionado pelo home office de fato será convertido em criatividade e inovação? E a produção do ócio destrutivo? Aumentaríamos a produção da riqueza, mas também alargaríamos as desigualdades socioeconômicas? Independentemente disso, parece-me que as previsões de Masi foram antecipadas, na marra, pela pandemia do coronavírus. A todo momento tenho observado produção de conteúdo através das redes sociais no campo das ciências, das artes, do ensino, da filosofia e do entretenimento. Estudantes têm acessado a internet para assistir a aulas virtuais, algumas delas em tempo real. Músicos têm transformado suas casas em palanques virtuais, publicando shows em plataformas digitais sem cobrar ingresso (por ora, claro). Líderes religiosos têm transmitido seus cultos e ritos nas redes sociais. Diferentes tipos de debates, consultorias e fóruns têm acontecido em escala global e em ritmo acelerado. Isso me faz crer que temos chamado, erroneamente, a quarentena de ‘isolamento social’, quando, na verdade, estamos cada vez mais conectados e sociáveis. Afinal, nosso conceito pós-moderno de ‘social’ não é o mesmo de 50 anos atrás. Não obstante, é importante salientar que a pandemia de Covid-19 não inventou o teletrabalho, o teleaprendizado, o teleamor ou a telediversão. Ela apenas despertou uma revolução incubada que, gostemos ou não, fará parte das nossas vidas de forma irreversível.”

A quarentena nos fez olhar para dentro e perceber como não somos proprietários da maioria de nossas escolhas e decisões. Paramos por decreto e não por livre-arbítrio. Como nos veremos daqui a alguns anos?

A ideia dessa crônica é ser um texto aberto.

Esse texto tem vários coautores e eu gostaria de sair da minha pequena bolha, deixando aqui criada uma fonte de pesquisa histórica para o futuro.

Convido os meus leitores a continuarem nos comentários e enviarem para as pessoas próximas a vocês para que elas escrevam também – sem receio ou bloqueios por questões textuais. Escrevam aí o que a quarentena está sendo para vocês. Pode ser uma palavra ou várias linhas.

Como vocês a têm encarado? Que impressões vocês têm do mundo e de vocês mesmos nesse período? Algo verdadeiramente mudou ou estamos apenas dando uma pausa para voltarmos a ser exatamente o que éramos antes?

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