O Sonho Da Classe Média

O Brasil é um país rico composto por maioria pobre. A concentração de renda é tão gigantesca que quem ganha 10 mil reais está nos 12% “mais ricos” da sociedade. Talvez isso explica o porquê há na classe média brasileira quem se vê como rico.

10 mil é aproximadamente 2 salários mínimos europeus.E até pensando lá naquele topo do 1%, quem ganha 19 mil reais está muito mais perto dos que ganham 5 mil do que das 40 e poucas famílias bilionárias brasileiras.

A desigualdade no Brasil é tão grande que ela gera um “salário psicólogico”. Explico: ainda que o poder de compra de quem ganha 5, 6, 7K não seja lá grande coisa, pessoas dessa faixa podem pagar certos serviços, financiar automóvel ou um imóvel, gerando a sensação de vitória pessoal.

Reforça a mitologia da meritocracia e do individualismo, pois a classe média se vê como vitoriosa mesmo estando muito distante da riqueza — ela mede essa vitória pelos mais pobres que a circundam.

E a quem interessa essa ideologia?

O G1 fez um levantamento em 2018 que 47% dos 513 deputados federais eleitos eram milionários. Ou seja, quase metade dos eleitos vem da faixa de 1% da renda. Sabem por que? Porque o “classe média” se vê mais próximo dos milionários que dos pobres e portanto vota nos anseios dos mais ricos.

É por isso que o debate político esvaziou o conceito de classe social — e, consequentemente o de luta de classes. Como impedir que os 64% mais pobres elejam a maioria do congresso? Tiram o debate da classe e introduzem o debate supraclasse: “ameaça comunista”, “defesa da família”, “defesa de deus e da pátria”…

É esta a importância das fake news para esse projeto de poder — para sustentar o domínio de uma classe sobre outras é necessário tirar o foco da luta de classes e colocá-lo em pautas subjetivas e morais.

Quem controla o poder econômico de verdade é 1% do 1%. E quem controla o poder econômico quer controlar o poder político. Mas para controlar o poder político eles precisam que a maioria (que é pobre) vote neles ou em seus agentes. Por esta razão eles precisam de ajuda: coachs, influencers, pastores, blogueiros, escritores, que muitas vezes propagam que a vitória econômica vem do esforço pessoal, da dedicação, da benção, do universo… eles são fundamentais no processo de quebra da consciência de classe.

Porque o discurso anticomunista cola aqui se todo o mundo racional sabe que desde 1989 o comunismo não é mais uma ameaça — se é que um dia foi? As pessoas pobres tem medo do comunismo pois não se veem como pobres. Ou mais: creem absolutamente que seu esforço pessoal lhes levará ao 1%.

Assim sendo, atacam qualquer projeto que vise alterar o establishment. Esse foi o real motivo pelo qual se voltaram contra governos de esquerda na América Latina. É por isso que atacam a educação, Paulo Freire, são contra cotas…

Eles sabem que não se trata de ameaça comunista.

Para os que estão no topo o objetivo é simplesmente continuar lá e permitir que seus descendentes continuem lá sem terem que concorrer em pé de equidade com os debaixo. Por isso que estar no 1% é geralmente muito mais uma questão de hereditariedade que qualquer outra.

Então você aí, que se diz classe média, reflita: você está mais próximo de morar num triplex em Manhattan ou num conjunto habitacional da COHAB? Está mais perto de desfilar de Ferrari ou voltar a usar o ônibus? Quando VOCÊ prega o desmonte do Estado de bem estar isso está mais perto de afetar a você mesmo.

A pandemia fez a “classe média” raivosa ir à rua contra o confinamento. E por qual motivo? Por que bastam algumas semanas sem trabalhar para os 10 mil sumirem. Não daria para pagar os SUVs que usaram nas carreatas. Eles se levantaram contra o risco iminente do empobrecimento, mesmo pondo-se em risco…

Na outra ponta, ricos de verdade ganharam grana na pandemia.

A quem é de esquerda ou progressista, cabe também o cuidado de não definir um metido a rico como burguês. Nós não vemos ou convivemos com a burguesia real. Exceto quando eles querem ser vistos (veio da Havan, Tesla…).

O que é urgente? Combater o charlatanismo da ideologia meritocrática. Defender um estado de bem-estar social. Para tal enfrentar as fake news e fazer a dita “classe média” entender que está muito mais próxima dos anseios dos de baixo que do país vislumbrado pelos de cima.

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