O que nos dizem as eleições municipais de 2020?

O primeiro processo eleitoral da era bolsonarista se encerrou ontem, 29 de novembro.

A pergunta que fica no ar é: o que essas eleições têm a nos dizer sobre o Brasil contemporâneo? As respostas são múltiplas e aqui vou dividi-las em algumas partes.

Em primeiro lugar, é preciso verificar que as eleições estadunidenses, que ocorreram esse ano, revelam duas tendências mundiais: o desgaste dos tipos caricatos da extrema-direita foi mais rápido que se poderia imaginar, mas a manutenção de uma militância aguerrida em torno deles segue significativa. Essa militância questiona a validade dos processos eleitorais, esticando a corda da instabilidade democrática. Há de se reparar que questionam o voto via cédula de papel nos EUA e o voto via urna eletrônica no Brasil, revelando que esse campo da política questionará qualquer que seja o sistema de votação, pois o problema para eles está exatamente em reconhecer a legitimidade da democracia, uma vez que não pertencem ao campo democrático.

Os EUA, como principal potência geopolítica, acabam ditando o que muitos analistas pensam ser o início de um efeito em cadeia para os países satélites – ainda que Richard Morse já tenha nos alertado dos perigos da análise da América Latina a partir do Espelho do Próspero… Não tardou para que alguns jornalistas de política dos grandes veículos apontassem para uma derrota do bolsonarismo nas eleições 2020 dos municípios brasileiros. Os números também não ajudam ao presidente, mas mesmo assim proponho cautela. Explico.

O bolsonarismo está tão à direita da direita que as direitas do campo democrático hoje se intitulam centro político. Aliás, o bolsonarismo – em sua inspiração olavista – nega ser direita qualquer coisa que se desprenda dessa estética distópica, grosseira e caótica que o presidente em pessoa representa juntamente ao núcleo ideológico do governo. A cautela que proponho quanto ao derretimento do bolsonarismo reside aí: ainda que a maioria dos candidatos caricatos tenham ido mal, há um processo de bolsonarização do centro político. Há muitas candidaturas ditas de centro com bandeiras bolsonaristas, apesar de assumirem outra estética – mais polidez, menos ataques à imprensa, menos uso de dos jargões…

Podemos até falar da derrota da estética bolsonarista, mas não podemos falar da derrota do bolsonarismo enquanto modus operandi e enquanto projeto de desmonte do Estado por um viés do liberalismo econômico. O dito centro – ou, como dizem, o centrão – incorporou muito bem o uso das ferramentas tecnológicas das redes sociais para difusão de campanhas de desinformação e difamação dos concorrentes. Além disso, pautas como fazer uma gestão eficiente sendo sinônimo de enxugar a máquina pública mesmo que para isso certos serviços sociais sejam prejudicados, também aparecem fortes nesse dito centro.

O dito centro político brasileiro foi o grande vitorioso dessa eleição e se a equipe de Bolsonaro souber ler isso, está aberta a porta definitiva da aproximação de Jair junto a esse grupo – grupo esse do qual ele sempre pertenceu em sua ociosa jornada de 27 anos como deputado. Os acenos de Bolsonaro ao centrão, que desagradam a ala mais ligada ao pensamento olavista, já começaram, com a demissão de alguns nomes, mas principalmente com a nomeação do mais recente ministro do STF.

Esse centro faz política de maneira pragmática e pouco ideológica e certamente vai se aproveitar de brechas que bolsonarismo deve abrir para ele, sob ameaça de tê-lo como opositor. Esse centro é maioria no Congresso e Senado e também nas prefeituras, como se pode ver na tabela abaixo:

A verdade é que grande parte desses partidos do dito centrão são partidos compostos por pessoas de direita, mas mais comprometidas com a manutenção de seu núcleo de poder que com a defesa de bandeiras ideológicas ultraconservadoras, ainda que, todavia, as defendam, já que estão ainda obtendo sucesso eleitoral, sobretudo entre os mais pobres ligados às igrejas evangélicas.

Grande parte dos partidos do chamado centrão vota maciçamente favorável a Bolsonaro em Brasília e, quando precisaram, até recorreram à estratégia das fake news, da difamação moral e do fantasma do comunismo – sim, de novo ele, fazendo a festa da aristocracia brasileira desde 1937…

Sobre a questão das campanhas de desinformação e difamação mais uma vez as mulheres candidatas sofreram mais – reflexo do patriarcado presente. Fica nítido nas campanhas contra Manu D’ávila, Marília Arraes e Célia Tavares, por exemplo. De permissão a consumo de carne de cachorro, passando pelo fechamento de igrejas e chegando à adoção do kit-gay nas escolas, rolou de tudo do mais fantasioso possível.

Desse centrão já quase bolsonarista, os partidos tradicionais tiveram uma queda, ainda que sigam nas cabeças – como MDB e PSDB –, enquanto que outras siglas como PP, PSD e DEM cresceram mais. Vejam:

Sobre a esquerda, contra dados não há narrativa – a derrota foi acachapante, ainda que algumas empreitadas pessoais e localizadas possam ser sinais de uma esperança futura – repito, futura. Para essa esperança se concretizar é preciso entender o que está em curso no Brasil e agir coletivamente contra ele, sem cisões e desde o 1° turno, como fez Edmilson, do PSOL, em Belém do Pará. Em meu livro pela AsM Editora, A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro, analisei a ascensão da extrema-direita em 2018. A derrota da esquerda lá e agora, em 2020, tem as mesmas bases. Antipetismo é só um eufemismo para luta de classes. Se no futuro próximo o PSOL tiver a maioria do campo da esquerda, será o antipsolismo. Louis Althusser já nos ensinou sobre os aparelhos ideológicos. A elite brasileira vence porque a ideologia dela é reproduzida também nas classes populares. E é reproduzida nas classes populares pois a direita tirou o debate do campo econômico puro e simples e jogou o debate para o campo moral e religioso, com apoio de pastores (e padres) conservadores.

Diga-se de passagem, as igrejas evangélicas já propagam essas fake news sobre a esquerda desde a década de 1980. O que a extrema-direita fez foi amplificar, via redes sociais, toda a pseudoteoria de conspiração gay, drogas e, inspirados também no olavismo, conseguiram associar isso tudo ao fantasma do socialismo.

Adam Przeworski, em Capitalismo e Social-Democracia (1989), explica como a classe média, que ele chama de proletários de colarinho branco, vê-se como parte da elite e se identifica mais com os anseios da elite. Ele já havia diagnosticado, desde 1989, que a criação desses cargos de melhor remuneração dentro da classe trabalhadora iria fomentar esse mito da meritocracia e fazer parcela da classe trabalhadora defender o sistema econômico burguês, para manter seu próprio estilo de vida de pequenos consumos.

Após a divulgação dos resultados das eleições de domingo, muitos intelectuais da esquerda escreveram em suas redes sociais contra os “pobres de direita”, chamando-os de burros, não leitores, manipuláveis e diversos outros adjetivos que só confirmam para os populares a arrogância da esquerda acadêmica que as campanhas de difamação não perdem a oportunidade de explorar. Não é esse o caminho para recuperar a hegemonia.

A grande questão é que no imaginário do pobre de classe média ele nem se vê como pobre. A questão, portanto,  não é dizer para o pobre que é incoerente ele votar na direita, a questão é fazer o pobre se reconhecer como tal. No Brasil isso é muito difícil, pois quem ganha cerca de 2 ou 3 mil reais por mês já se proclama “classe média”. Isso porque a extrema pobreza é tão grande que esta dita classe média acaba se sentindo em posição de status superior em relação ao todo. Essa sensação de superioridade, somada ao lava-jatismo, à teologia da prosperidade calvinista, ao falso moralismo, ao racismo estrutural – como nos ensina Jessé Souza – e à ação da grande imprensa, tornaram o campo fértil ao antiesquerdismo.

O pobre de classe média teme o socialismo hipotético porque associa o socialismo à degradação dos valores morais e também para defender sua propriedade – não a propriedade que ele possui, pois na maioria das vezes não possui nada além de carnês de prestação, mas a propriedade que ele crê que vai possuir, devido a seu mérito pessoal e à benção de Deus, é claro.

Mas pensar no governo do PT como socialista é sociologicamente falando um erro crasso e é daí que entra a importância das fake news. Desacreditar a Academia e chamar tudo o que não seja de extrema-direita de socialismo passou a ser o caminho para a desinformação coletiva gerar o pânico coletivo dessa classe média que não é ilustrada. Como disse acima, o bolsonarismo está tão à direita que a direita democrática é vista como centro, o centro como esquerda e a esquerda como extrema-esquerda. Basta analisar o que dizem os blogueiros bolsonaristas, como o Olavo, dos Santos, ou Constantino…

Não vejo saída em médio prazo sem forte organização, que o campo não tem se mostrado disposto a fazer, e sem apostar em líderes novos. Muito difícil animar a militância para girar em torno de candidatos que já tiveram seus nomes envolvidos em escândalos que, forjados ou não, estereotiparam o campo. Muito mais animadas as militâncias em torno de nomes dessa geração, como Manu, Marília e Boulos.

No Espírito Santo, de onde escrevo, além de substancial vitória do centrão para os legislativos municipais, núcleos bolsonaristas da ala ideológica evangélica-olavista se instalaram nas prefeituras – principalmente na capital, Vitória. O estado se mostrou um dos mais conservadores nos costumes e essa pauta se mostrou mais importante que geração de renda para vencer a pobreza, educação e saúde, uma vez que o candidato do Republicanos venceu nas regiões mais ricas e mais pobres da capital.

Coisas que passam desapercebidas no resto do Brasil, pelo fato do ES ser um estado pequeno, é que bem antes do Rio, milícias policiais e judiciárias já governavam o ES, impondo inclusive atentados contra seus opositores – a se destacar o juiz assassinado  Alexandre Martins Filho. Outra questão é que o antipetismo do capixaba surgiu antes mesmo da Vitória de Lula, sendo oriundo ainda da época em que Vítor Buaiz foi governador. O ES também registra, proporcionalmente, o maior crescimento neopentecostal do Sudeste.

O que nos aguardam esses quatro anos seguintes não é muito diferente do que o atual Brasil de Bolsonaro se mostrou até agora.

Qualquer tentativa de prever 2022 é precipitada, mas, empiricamente falando, repetir as mesmas fórmulas e sobretudo as mesmas caras não parece ser o acertado para os que queiram trazer de volta o Brasil para o século XXI.

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