Historicidades, Memória, Patrimônio e Afetividades

Ações para o Centro de Vitória (2ª Edição – 25 de janeiro de 2020)

  1. As cidades na Reação Termidoriana pós-moderna

No dia 30 de novembro de 2019, estive no espaço cultural A Oca, no Centro de Vitória, para debater ações para a cidade e, sobretudo, para o bairro Centro, tão importante por aglutinar manifestações culturais de diferentes esferas e etnicidades. Naquele momento, destaquei minha então recente ida ao Instituto Pólis, em São Paulo, no qual foi apresentado o tema que norteava as abordagens do instituto à época: Lute pelo direito à Cidade!

Mas por que temos que lutar pelo Direito à Cidade?

Desde 2013 tem se implementado no Brasil uma virada política, conservadora nos costumes e liberal na economia, que teve como ponto de partida as Jornadas de Junho de 2013, atingindo seu apogeu no golpe que destituiu a presidenta Dilma, em 2016 e teve como consequência o surgimento de uma nova extrema-direita que viabilizou a vitória de Bolsonaro, nas eleições de 2018[1].

Essa mudança conjuntural foi possível pela adoção de práticas pouco republicanas por parte do Partido dos Trabalhadores e sua base aliada ao longo dos anos, o que possibilitou à elite brasileira, opositora ao projeto de emancipação popular do PT, uma reação construída com apoio da grande mídia, das redes sociais coordenadas internacionalmente pela Cambridge Analytica de Steve Bannon e das igrejas neopentecostais mais conservadoras.

Conservadora nos costumes, mas liberal na economia, a ideologia perpassada através dos algoritmos certeiros da internet está cada vez mais forte no imaginário popular que assimilou o ideal liberal de privatização, redução dos direitos trabalhistas e diminuição da ideia do público, como caminho dito inevitável para o crescimento econômico.

Tal narrativa observa a realidade por um viés fundamentalmente economicista, utilitarista e pragmático, sem dar espaço para o lúdico – como, por exemplo, na questão imobiliária nos projetos urbanísticos modernos. Tem valor o que tem valor comercial/industrial/financeiro. As leis de mercado não se interessam muito pelo simbólico, pelo imaginário, pela representatividade, pela História e Memória – a não ser, é claro, que identifique que esses valores podem ser precificados.

Nessa radicalização ultraliberal que estamos vivendo, o acesso ao espaço público torna-se mais difícil, pois em nome da defesa irrefutável da propriedade privada as ações de instituições financeiras são facilitadas, gerando bolhas especulativas nas cidades – o Centro é um reflexo vivo disso, onde muitos prédios de valor histórico são inacessíveis.  Em nome do mercado imobiliário se abre mão de um verdadeiro desenvolvimento social – da pólis, no sentido estreito da coletividade.

Esse Estado mínimo gera o abandono de estruturas inteiras, que poderiam cumprir sua função social que é constitucionalmente prevista. Esse abandono, por sua vez, gera situações como a que vivenciamos há algumas semanas no Centro – o desabamento de um prédio inteiro. Delegar à iniciativa privada todos os remédios que um país necessita é uma miopia que não funcionou plenamente em nenhum lugar do mundo[2].

Manuel Castells, atual ministro das Universidades da Espanha, escreveu a Questão Urbana (1983), texto no qual ele desenvolve o conceito de espaço urbano dentro do conceito de ideologia e controle da classe social dominante nas cidades. Controlar o espaço urbano, segundo Castells, é controlar a proposital desigualdade na distribuição de serviços públicos. Em dezembro recente, estive no mesmo dia na comunidade de Jesus de Nazareth e no novo parque construído no final da orla de Camburi. É verificável a tese de Castells de como o Estado é ausente na primeira e muito presente na segunda.

Isso se reflete diretamente com o Centro. Explico…

Em pesquisa recente encomendada pelo Jornal A Gazeta para o Dia da Consciência Negra, em novembro do ano passado, foi amplamente divulgado que o ES é um estado de maioria negra – cerca de 62% da população. Não foram poucos os estranhamentos, por exemplo, por parte dos meus alunos – fundamentalmente jovens de classe média.

Houve também um caso em particular de uma amiga de infância que me disse, em uma conversa sobre viagens, que quando ela esteve em Salvador, palavras dela, “ela se sentiu mais no Brasil de verdade, pois havia muitos negros lá, diferente daqui, onde a maioria é branca”. Quando disse a ela que essa impressão estava equivocada, que não somos um estado de maioria branca, ela se espantou.

O capixaba se projeta como branco, como italiano, como alemão…

As peças publicitárias que vendem o ES ao turismo – “do mar à montanha…” – vendem um ES europeizado. As manifestações culturais de fora deste leque – indígenas, como os carnavais de congo, ou africanas, como o samba, são deixadas de escanteio do mainstream comercial. É nesse ponto, o da etnicidade, que o Centro foi, ainda mais, posto no ostracismo dos investimentos públicos e privados. Quer se mostrar mais a vila feudal pomerana que o quilombo da Piedade. Isso tem um nome: racismo (nesse caso, estrutural e por que não, institucional).

  1. Como as cidades reagem? – as lições que a História nos ensina

Domenico de Masi, em O Futuro Chegou, analisa modelos de desenvolvimento social de diferentes civilizações. No capítulo dois, ele explica quais são os fatores de conformação de sociedades urbanas[3]:

  • Indústrias;
  • Instituições políticas e administrativas;
  • Mercados;
  • Entretenimento;
  • História;
  • Cultura e Religião,

Ao mesmo tempo, o autor destaca que todas as cidades que prosperaram (cada qual no seu case), tem algo em comum: áreas de encontro e vivência que permitem que o cosmopolitismo dialogue e se encontre para refletir sobre a própria cidade. Assim podemos verificar na Londres vitoriana do início do século 20 (parques, bibliotecas e teatros); nas resilientes Hiroshima e Nagasaki, do pós Segunda Guerra; No Rio de Janeiro da década de 1920 (dos parques e praças até as praias da zona sul); e Medellín, na Colômbia que superou os traumas do tráfico e das guerrilhas investindo em centros sociais públicos… são muitos os exemplos históricos.

De Masi, que também é autor de Ócio Criativo, defende o direito ao ócio nas cidades. Explica que as cidades atingiram seus apogeus quando foram divertidas e inteligentes.

É exatamente esse direito ao ócio criativo, gerado pelo convívio no espaço público, que está cada vez mais dificultado pelo modelo privatista de estado neoliberal e da cultura Time is Money, cada vez mais perpetuada por essa síndrome do “empreendedor do amanhã”, que coloca as pessoas mais distantes de contemplar o presente em prol de ter uma bela (e muito hipotética) carteira de investimentos na velhice.

Está ameaçado o direito ao ócio criativo, o direito do convívio e o direito à cultura em geral, por que a cidade divertida é ameaçadora ao projeto teocêntrico que se pretende implementar no Brasil – a docilização dos corpos, como nos explicou Foucault, para atender a um processo de uberização das relações de trabalho, depende de uma autopenitencia, muito mais facilitada se vier acompanhada de um ideário religioso de salvação pelo trabalho (Calvino).

As cidades divertidas estão ameaçadas porque ameaçam.

David Harvey e Slavoj Zizek, quando estudaram as Cidades Rebeldes, perceberam que as lutas pelo bem comum começaram exatamente em cidades que as caraterísticas de convívio público existiam, como citado acima.

Em algumas realidades, com manobras bem elaboradas, a reação da elite dominante foi capaz de garantir a manutenção de sua hegemonia sobre o espaço urbano, sobre os corpos e sobre o poder – como no Brasil (2013 – presente) e na Bolívia (2019 – presente).

Em outros casos, como o do Chile, as elites detentoras desse projeto ultraliberal não conseguiram assumir o protagonismo das ruas, o que leva a uma retomada do espaço urbano por quem é seu detentor por direito – o povo, os corpos que se encontram nesse espaço urbano diariamente.

Assim, nessa reação conservadora àquilo que nós historiadores estamos chamando de onda rosa, uma das maiores consequências será a redução do nosso acesso ao espaço público, como, por exemplo, o Centro. Seja com a retórica de que é preciso evitar encontros subversivos (evitar que a esquerda destrua a propriedade privada…), encontros promíscuos (leia-se relações fora do prisma heteronormativo), encontros ilegais (a retórica da guerra às drogas), o aparelho repressor e ideológico já está funcionando contra, por exemplo, o carnaval de rua.

Casos recentes de violência policial no Paraná contra um ensaio de um bloco, abaixo-assinado dos moradores do Centro de Vitória contra o carnaval – fica sempre a reflexão: que moradores? Quem tem recebido e incentivado tais reclamações? – são exemplos dessa restrição, que deve aumentar se a reação conservadora não for parada.

Assim, encerro. Levantando que o projeto de intervenção que podemos pensar para o Centro de Vitória nessa conjuntura vai muito no sentido de nos mobilizarmos para frear a ascensão do autoritarismo, num momento onde surge no horizonte eleitoral de outubro muitos fantasmas para Vitória.

[1] SOARES NETO, Eliezer Brasil. A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro. AsM Editora, Macaé – RJ. 2019.

[2] SOARES, Geraldo. A Utopia Liberal. UFES. 2002

[3] Nesse ponto, o estudo de de Masi é muito equivalente ao de Lefebvre, quando este estudou as revoluções urbanas.

*Mesa-redonda promovida pela Oca, espaço cultural, para repensar o Centro de Vitória e a cidade como um todo.

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