Ensaios sobre o pensamento conservador (parte 1: apreensões iniciais)

“Os conservadores são pessimistas quanto ao futuro e otimistas quanto ao passado.”

LEWIS MUMFORD

Desde as jornadas de junho de 2013, a internet ganhou uma nova vocação: a discussão de conceitos das ciências humanas. Como discuti nos capítulos 6, 7, 8 e 9 do meu último livro,  “A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro”, a maior parte dessa discussão é feita sem o apego conceitual devido, com grupos que se baseiam em vídeos curtos de blogueiros pseudo-filósofos que propagam interpretações errôneas dos clássicos da filosofia e narrativas históricas completamente desgarradas da empiria.

Conceitos vinculados ao liberalismo e ao marxismo são constantemente usados de maneira errada e anacrônica, como já trabalhei no meu livro e em alguns artigos desse espaço. Todavia me ocorreu uma dúvida quanto ao uso do conceito de conservadorismo, uma vez que muitos desses grupos e blogueiros se colocam como conservadores.

Para minha pouca ou nenhuma surpresa, muitos desses grandes perfis virtuais que se dizem conservadores também mostram pouca ou nenhuma precisão conceitual.

Decidi então fazer uma série de postagens sobre o pensamento conservador, com o objetivo futuro de mapear o atual pensamento dito conservador brasileiro. Nessa primeira parte, apresentarei nota de algumas abordagens realizadas pelo professor doutor Fábio Muruci, em vídeo conferência realizada com profissionais da História no final de julho.

Para o professor Muruci, não se deve entender o conservador apenas como aquele que quer conservar tradições antigas ou o que é avesso a mudanças. É preciso ir além.

O conservadorismo pode ser entendido como uma corrente de pensamento que se coloca contra a existência de padrões universalistas, como propunham haver os iluministas. Muito apegados a uma visão de História historicista – tendo como base o historicismo alemão de Ranke e Dilthey – entendem que a História de cada povo deve ser entendida na sua particularidade, longe de macromodelos explicativos e/ou comparativos. Tal como são contrários aos macromodelos explicativos, os conservadores também se posicionam contra a existência de direitos universais. Ao se analisar um determinado povo ou sociedade, os conservadores pensam que isso deve ser feito sem que haja a comparação com outros povos e sociedades, mas, entretanto, deve-se valorizar mais dentro de cada povo os padrões culturais mais duradouros – que são vistos pelo pensamento conservador como superiores por terem resistido às mudanças decorridas do tempo. Sendo contrários à ideia iluminista de que existem direitos universais, ao mesmo tempo em que refutam a possibilidade de se explicar um povo através de macromodelos, os conservadores podem julgar positivo um governo autoritário – seja uma monarquia absolutista ou uma república ditatorial – se esse governo se mostrar mais adequado àquele determinado povo naquela determinada época e, principalmente, se o autoritarismo for o padrão mais duradouro da cultura deste povo.

Não se pode estabelecer uma agenda conservadora única. De modo que alguns conservadores foram contra o fim da escravidão nas Américas (por ser a escravidão considerada por eles como a base fundamental da cultura da América ao lado do puritanismo), enquanto outros foram favoráveis. O mesmo, por exemplo, vale para o nazifascismo – enquanto conservadores ingleses e estadunidenses se mostraram contrários, os conservadores alemães oscilaram de omissos a apoiadores. Portanto, para analisarmos o conservadorismo é preciso observar a singularidade de cada país.

Se formos traçar uma linha comum do pensamento conservador, transcendendo as diferenças entre eles, podemos verificar que são a favor da ordem e da estabilidade, sendo, portanto, contrários a revoltas, agitações sociais que possam culminar em revoluções, vista por eles como desordem. Manter a sociedade calma, sem aquilo que é chamado de desordem – ou seja, qualquer movimento que vise revolucionar as estruturas vigentes – é uma linha comum do conservadorismo.

Também comum ao conservadorismo é a defesa da hierarquia, vista como algo natural de cada sociedade. Vislumbra-se uma elite no poder, que pode variar conforme conjunção histórica de cada povo – uma elite agrária, de sábios, militar ou econômica… A comunidade política seria convertida para um grupo específico de tecnocratas que detém o poder de mando em dada sociedade.

Pode-se até encontrar momentos históricos onde os conservadores proponham mudanças, porém mudanças com prudência, mantendo a sociedade sob controle e feita pelos de cima. Mas, contraditoriamente (à ideia de mudança), essas mudanças não objetivam transformar a realidade, mas fazer pequenos ajustes para que as coisas se mantenham como estão. Ou seja, pequenas transformações para confirmar o que já existe. Um exemplo histórico disso pode ser o Despotismo Esclarecido, outro, mais recente, as manifestações de 2013 e pelo impeachment em 2016, que foram feitas com aparente véu da legalidade, com o controle da ordem e feitas para impedir que as transformações estruturais perpetradas pelos governos petistas fossem adiante. Em suma, o povo não deve ser protagonista, mas deve ser comandado pelos tecnocratas dirigentes.

Nos próximos artigos desse tema vamos abordar uma confusão muito comum que se faz entre conservadorismo e fascismo. É a mesma coisa? Aliás, há relação? Também vamos analisar conceitos de Burke e Kirk e, mais adiante Scruton. Como já exposto, o objetivo será mapear o discurso dos ditos conservadores brasileiros e como tem agido politicamente sobretudo nas redes sociais.

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