A distopia da pós-verdade em tempos de COVID-19

Ignorância mata como o vírus mais letal. E me refiro aos dois tipos de ignorância: a ignorância pura, daquele que simplesmente não conhece algo por falta de acesso à informação, e a ignorância canalha, daquele que, tendo acesso à ciência, prefere negá-la por interesses quaisquer – de ordem econômica, política ou religiosa.

Em tempos de coronavírus, o que a História tem a nos ensinar sobre combater doenças?

Pedro Paulo Funari, ao escrever sobre a Guerra do Peloponeso, na obra História das Guerras (org. Demétrio Magnoli), revela uma fonte atribuída a Tucídides (c. 401 a.C), na qual ele relata uma estranha sensação dos soldados atenienses, o que explicaria uma das causas da vitória espartana. Os sintomas descritos por Tucídides se parecem com duas patologias hoje amplamente conhecidas: a salmonela e a febre tifoide. Naquele tempo, os espartanos – e até o mais cético dos atenienses –, desconhecendo os aparatos teóricos da medicina moderna, atribuíram aquilo a algum tipo de castigo dos deuses aos soldados da imperialista Atenas, que morreram como moscas nas Termópilas.

Durante a Idade Média, por volta do século XIV, o surto de peste bubônica tornou a decadente Europa feudal um purgatório. Ali, a ignorância ingênua se misturava ao fanatismo religioso católico, que impedia estudos com o corpo humano, dificultando a compreensão da dimensão e da solução para o problema.

Já no século XIX, fase pós-racionalismo iluminista e de produção científica e filosófica em franca ascensão, tivemos alguns grandes surtos, que se alastraram não por desconhecimento, mas pela negligência consciente de alguns agentes políticos que impetravam o domínio imperialista sobre África e Ásia: a cólera, que talvez tenha sido a primeira pandemia de fato, por atingir vários continentes, e que é uma doença típica do subdesenvolvimento;  a gripe russa, que surgiu na região do atual Uzbequistão; a tuberculose, doença que até meados do século passado fez milhares de vítimas.

No século XX, a gripe espanhola chegou a causar 40 milhões de mortes pelo mundo todo e chegou perto de contaminar cerca de 50% da população mundial, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Em meio à Grande Guerra, soldados que voltavam para suas casas levavam a influenza, que sequer era espanhola. Poucos sabem que a gripe espanhola chegou à Europa pelo miolo, e não pela Península Ibérica. Ocorre que grande parte da Europa possuía governos autoritários, os quais seguraram a informação da pandemia para não desencorajar as tropas. A Espanha, que não foi tão atingida na Primeira Guerra como outras nações e possuía uma imprensa relativamente mais livre, foi a responsável por noticiar o vírus ao mundo – isso acabou batizando-o como gripe espanhola.

A partir desses casos, podemos auferir algumas impressões que a História nos dá para não  repetirmos os erros do passado:

  • A ignorância pura gera mais mortos, pois impede que haja prevenção e tratamento que fuja do senso comum. É necessário, portanto, educar as populações para que sejam do conhecimento público sintomas, cuidados, prevenções e tratamentos.
  • Em todas as realidades nas quais crendices populares, mitos e/ou religiões foram os carros-chefes na condução das epidemias tivemos ainda mais problemas, pois, além da própria doença, “culpados” pela mazela espiritual foram apontados e condenados.
  • Controlar quem dá as informações para a população é crucial – restringir as fontes de informações a especialistas médicos –, porém controlar as informações – no sentido de não divulgação – pode ser letal.
  • No combate às pandemias, ter um Estado gerenciado por pessoas competentes e comprometidas faz muita diferença. A ausência de Estado gera o caos. Geralmente quem atua contra as pandemias são sistemas de saúde estatais.

A partir do exposto, o coronavírus chega com potencial, segundo a OMS, de ser uma das maiores pandemias da História, em uma época na qual o fato importa menos que a narrativa. Como disse Noam Chomsky, as pessoas estão mais interessadas nas versões sobre os fatos do que nos fatos em si. As redes sociais contribuem para perpetuar essas pós-verdades, sobretudo em um tempo no qual as novas extremas direitas vêm utilizando as redes sociais para propagandear hipotéticas conspirações internacionais, causar medo e, assim, justificar a adoção de pautas políticas conservadoras, atendendo ao projeto político que eles encampam.

Assim sendo, já circulam pelas bolhas virtuais (sobretudo em aplicativos de conversa, que atingem pessoas intelectualmente mais carentes) informações completamente megalomaníacas, que vão desde a negação da existência da doença até a teoria de que se trata de uma arma biológica chinesa para desmontar o capitalismo global. Os propagadores dessas fake news geralmente fazem isso conscientes do caráter estapafúrdio das ideias, mas ludibriam a população para vender cursos on-line, receitas mirabolantes e fajutas de investimento, ajuda espiritual ou para justificar governos inoperantes e débeis frente a essa crise sanitária mundial. É o que ocorre no Brasil. A incapacidade política e administrativa do presidente e da maioria dos ministros, somada à irresponsabilidade e imaturidade dele – e, para alguns, até certos distúrbios mentais – só pode ser defendida pelos seus apoiadores se eles descreditarem a real ameaça que essa doença traz à sociedade.

Por força do destino, e de um ministro da saúde que se desgarra da linha far-rigth, os governadores dos estados parecem ignorar o Napoleão de Pijamas que está à frente do Executivo Federal e seguem aplicando os planos de contenção para que nossa curva não seja tão radical como aquela verificada na Itália.

Façamos a quarentena, cuidemos dos idosos, não levemos em conta os devaneios de oportunistas da internet, como filósofos e historiadores sem diploma, coaches e pastores charlatães e médicos que não são médicos.

Pedagogicamente, o Covid-19 já nos ensinou muito. Ensinou que quem produz a riqueza são os trabalhadores, que o mercado é incapaz de dar respostas aos anseios fundamentais da sociedade, que precisamos fortalecer o SUS, que o desespero da classe média por não trabalhar e não ter renda para pagar seus boletos revela que essa classe média não é rica como julga ser, é apenas uma classe pobre (ainda que menos pobre que a maioria dos pobres). E ensinou que não devemos eleger sociopatas.

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