Tolerância já!

Angel Rafael Mariño
Angelo Mariño

Voltaire, em seu Tratado sobre a tolerância, discorre sobre como o convívio sob a bandeira da liberdade demanda uma flexibilidade de cada um em face às características de outrem. A intolerância religiosa da época do autor pode ser vista como um alerta sobre o tipo de atitude que não deve ser tomada entre concidadãos, justamente por todos dividirem o mesmo manto cultural e formarem parte da mesma Nação. Desde uma perspectiva iluminista da sociedade pode-se dizer que o que une os indivíduos é o que todos sonham em comum: viver em um país próspero, democrático e moderno, sob o imperativo da ordem e do progresso.

Experiências eleitorais recentes foram marcadas pela divisão. Não se pode mais permitir que os horrores da discórdia se prolonguem e multipliquem a ameaça sobre a paz e a convivência civilizada. Pensar e comportar-se como parte de uma comunidade política é dever fundamental de todos, independentemente se vencedores ou vencidos, nos pleitos eleitorais.

Diferenças podem, e até devem, existir para evitar a tediosa, repressora e falsa unanimidade e homogeneidade social que já foi utilizada como fachada no passado (seja esse passado autoritário, fascista ou comunista. Não importando se a experiência fora aqui ou acolá). Mas as discrepâncias unicamente são boas quando existem dentro dos limites da convivência democrática, constituicional, moral e legal, o que pressupõe tolerância.

Pensar a tolerância é hoje imperativo. Trata-se, sobretudo, de uma obrigação cidadã. Seria simples e minimalista limitar essa responsabilidade a uma mera questão constitucional (apesar da relevância do texto constitucional). É muito mais: é um comportamento necessário em ordem à democracia existir e prevalecer. Ser diferente presume que aqueles que não são iguais tenham e desfrutem de seus espaços.

Nada provindo da intolerância poderia ser louvado: prima facie, o comportamento intolerante sustenta-se no pressuposto da certeza e da verdade. “Eu e nós estamos certos, enquanto ele e os outros estão errados”. É fútil e irracional, posto que é tese que não tem fundamentos nem se justifica. Sendo o Brasil um país grande, poderoso e de relevância mundial, é crucial para o salutar desenvolvimento da Nação a construção de laços que alcem o gigante a seu posto merecido. Os concidadãos, enquanto coletivo que compartilha dos mesmos objetivos, herdeiros de história comum, nacionais de uma mesma comunidade política, não podem se afundar em suas próprias rixas.

As regras existem e estão bem postas a partir da Constituição Federal, que é democrática e ideologicamente rígida. Intérprete nenhum, por mais que queria,  poderá maquiá-la ou alterá-la. Jogar o jogo democrático da unidade na diferença representa progresso, constitucionalidade, legalidade e moralidade. É adotar a democracia como forma de vida.

Nessa “guerra”, nem será possível desaparecer com metade da população, nem muito menos aspirar que o Brasil enrede uma migração em massa, como aconteceu em comunidades políticas vizinhas. O país é de todos e é urgente admitir as diferenças, seja entre partidos e programas políticos ou orientações ideológicas. Abandonar a batalha da vida ou morte ideológica em prol de um discurso conciliatório e tolerante é a porta de entrada para mudanças. Que se iniciem já.

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