#Opinião – Tráfico de versos

Muito antes do samba se consolidar como o estilo musical popular do século passado e a lei de Propriedade Intelectual nem pensar em ser escrevinhada nas páginas jurídicas havia uma situação sui generis no cenário musical: o tráfico de versos.

O princípio lírico era outro no entorno dos morros. No início do século 20, os cantores de voz pomposa, cheia de vibratos cujas sílabas finais dos versos eram esticadas para dar plasticidade à grande voz, distinguiam-se à sumidade artística.

O trajeto para alcançar o topo da montanha parnasiana com suas glórias, reconhecido pelo grande público e com muitos contratos fechados era tornar-se cantor nos primórdios da Era de Ouro do Rádio.

Tudo certo até aí. Mas de onde vinha o manancial de versos que abasteciam o mercado musical? Da figura do compositor com sua sensibilidade genuinamente popular. Muitos deles não haviam terminado o ensino fundamental, mas tinham destreza para a palavra. Esses trovadores eram relegados ao segundo escalão da pirâmide ‘fonográfica’, sendo que em termos de relevância eram e são tão primordiais quanto os canários do tom.

Muitos cantores eram habitués das incipientes rodas de samba ‘amaxixado’ e ficavam de butuca para roubar versos ou comprá-los clandestinamente ao pé do morro.

Há muitos casos em que estrofes, estribilhos, rimas ricas, pobres, preciosas, internas eram negociadas a preço acima de mercado, pois o potencial de arrebatamento público poderia ser enorme. Isso alimentava financeiramente toda a cadeia musical. E o test drive era realizado nos botecos cariocas ou no fundo dos quintais dos casebres, já que a aglomeração era vista pelas autoridades como arruaça.

A negociata, no entanto, acabou com a profissionalização dos músicos, gravadoras e compositores. O entrave começou a ser deslindado, dando aos artífices do verso a primazia de sua propriedade intelectual. Ganhou a música, ganharam todos. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *