#Opinião – Quão nazista é você?

“Os fascistas do futuro não vão ter aquele estereótipo de Hitler ou Mussolini. Não vão ter aquele jeito de militar durão. Vão ser homens falando tudo aquilo que a maioria quer ouvir. Sobre bondade, família, bons costumes, religião e ética. Nessa hora vai surgir o novo demônio, e tão poucos vão perceber a história se repetindo”. (Autor desconhecido)

“A cadela do fascismo está sempre no cio”. (Bertold Brecht)

“Não leve flores para a cova do inimigo, pois as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo, podem fazer renascer um mal antigo”. (Belchior)

O autor alemão Timur Vermes escreveu o livro Er Ist Weider Da, ou Ele Está de Volta. Vermes imagina como Hitler seria recebido pela sociedade caso ressuscitasse. Apesar de suas declarações homofóbicas, racistas e genocidas, a sociedade surpreendentemente o recebe bem. Acham engraçado, inofensivo, um meme vivo contra o politicamente correto. Na comédia de Vermes, Hitler vira um fenômeno do Youtube, concorre às eleições e, adivinhem? Vence! Suas promessas eleitorais: fim da corrupção e expulsão dos imigrantes. Quem o apoiou? Neonazistas, é claro, mas também todos aqueles cansados da “velha política”. Parece absurdo para o século XXI, não é mesmo? Mas a vitória dos nazistas em 1933 foi por vias eleitorais e a democracia foi sendo desmontada por dentro, posteriormente a ditadura foi implantada e as consequências dela são de conhecimento geral…

O nazismo é um tipo de fascismo. Qual é a definição clássica de fascismo? Segundo Umberto Eco, no livro O Fascismo Eterno, o que caracteriza um discurso fascista é o constante culto às tradições e às raízes nacionais, o medo e a negação do diferente, um constante estado de ameaça, a exaltação da vontade popular, uma forte oposição a qualquer análise crítica que se faça a eles, uso de teorias de conspiração e criação de inimigos comuns a serem combatidos, repressão ao corpo e à sexualidade, linguagem limitada e repetitiva, apelo a uma classe social frustrada, excessivo militarismo, negação da arte e da ciência e proclamação de um líder máximo, um herói, visto como o salvador da pátria.

Diferente do que muita gente pensa, o fascismo italiano antecedeu o nazismo alemão. Hitler é um subprotudo de Mussolini, todavia é o exemplo clássico de “criatura que superou o criador”. A Alemanha levou o fascismo ao seu grau mais elevado de radicalismo, inserindo nele alguns outros tons, mais vinculados à ideia de superioridade racial, eugenia e antissemitismo.

Após a Segunda Guerra Mundial, os horrores do nazismo foram revelados: os campos de concentração e extermínio eram como indústrias da morte, para os quais eram enviados toda a sorte de opositores do regime e aqueles que eram vistos como raças inferiores – principalmente os judeus. Mas quem pensa que o nazismo morreu com o suicídio de Hitler e o fim da guerra está enganado. Os valores nazistas ainda são debatidos e propagados em várias partes do mundo, inclusive fora da Europa, na América e, pasmem, no Brasil. Grupos neonazistas sempre existiram nos subterrâneos das cidades e, mais recentemente, nas profundezas da deepweb, trazendo as ideias de Hitler até para países fundamentalmente miscigenados, como são os países da América. Nos EUA, a Ku Klux Klan advoga vários princípios nazistas, tal como o famoso grupo paulista, Carecas do ABC, aqui no Brasil.

A questão fundamental é que de uns tempos para cá – particularmente de 2013 em diante – as teorias de inspiração nazistas saíram das profundezas e começaram a rastejar na superfície. Evoco o excerto de Saramago que apresentei no início do texto: quando se fala no nazifascismo contemporâneo, muitos negam a sua existência, pois esperam a imagem de um líder fardado, tanques na rua e assassinatos coletivos, como viram nos filmes. Não é (ainda) o caso. Como expliquei em meu mais recente livro A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro, as jornadas de junho de 2013 foram apossadas por uma nova extrema-direita ultraconservadora que entende que todos os avanços sociais e identitários dos últimos anos fazem parte de uma grande conspiração da esquerda para por fim aos valores cristãos.

Os nazistas de hoje, aqui no Brasil, não têm os judeus como inimigos, mas se opõem  à ascensão de negros, índios, ao empoderamento da mulher e dos LGBTQI+ e a qualquer pauta progressista. Usam a mesma semiótica de Goebbels, gênio por trás da propaganda de Hitler. Todavia, sabendo da repercussão negativa do nazismo, o astrólogo que orienta as ações da extrema-direita através do youtube, inventou uma jabuticaba, sem nenhum respaldo acadêmico, que é tentar associar o nazismo à esquerda marxista. Muito antes do secretário especial de cultura, Roberto Alvim, deixar clara a inclinação nazista que permeia o governo, já era possível ver algumas páginas do Mein Kampf ganhar a realidade.

Sendo o governo um reflexo do seu povo, a pergunta que se faz é: o quão nazista é você?

Se você riu quando o então deputado Jair Bolsonaro disse que a melhor coisa que existia no Maranhão era o presídio de Pedrinhas, você também é um pouco nazista; se você postou na internet que bandido bom é bandido morto, você também é um pouco nazista; se você ovulou com o Capitão Nascimento colocando os bandidos “no saco”, você também é um pouco nazista; se você riu dos viadinhos da sua rua, do anão ou da obesa, você também é um pouco nazista; se você fez piada com o desparecimento de Elisa Samudio ou com o assassinato de Marielle Franco, você também é um pouco nazista; se você acha que as Ditaduras latino-americanas foram o máximo, mesmo sabendo que torturavam estudantes e estupravam mulheres, você também é um pouco nazista; Ustra, Pinochet, Stroessner, são seus heróis? Então você é um pouco nazista. Se você está disposto a chamar um homem comum de mito, você é um pouco nazista. Se você acha que helicóptero tem que disparar contra favelas, você é um pouco nazista. Se você achou o máximo a frase que disse que “os quilombolas não servem nem para procriar”, ou “herdamos a preguiça dos índios”, vejam só, você é um pouco nazista; se você riu da morte do neto do Lula, se você gosta quando o presidente se dirige ofensivamente contra a mãe de jornalistas, se você não se incomodou com xenofobia em relação à escritora de origem nipônica, você também é um pouco nazista. Se você acha que bailes funks deveriam ser proibidos e que os livros têm um amontoado de coisa escrita, você também é um pouco nazista. Se você tiver uma religião e a usar para justificar sua violência e preconceito, você é um pouco nazista. Se julga que “macumba é coisa do demônio”, você é um pouco nazista. Se você acha que todo esse parágrafo é “mimimi”, você é um pouco nazista.

Agora, se você reúne as características acima, mas trabalha, paga impostos, gera empregos e adora os judeus e Israel, sabe o que isso te faz? Faz de você ainda assim um nazista. Um pouco de nazismo já é nazismo.

O nosso país caminha por rotas muito perigosas e é preciso ficarmos atentos. Uma grande igreja neopentencostal está formando um tropa paramilitar chamada de Gladiadores do Altar, o envolvimento de governo com milícias é mais que provado, e essas milícias parecem dispostas a cumprir sua “solução final”, o líder da Ku Klux Klan disse que Bolsonaro soa como eles, o aparato das armas se impõe cada vez mais no país, muitas vezes cm vistas grossas do Judiciário. Nessa semana, milicianos impediram com violência um protesto contra a ministra Damares… São muitas as “coincidências discursivas”. E se formos para as vias de fato? Qual será seu lado na trincheira (e nos livros de História)?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *