#Opinião – Pátria Armada Brasil

– 12/11/1823: o Rei, por meio de um golpe armado, derrubou a Constituinte e, pouco depois, outorgou a primeira Constituição do país.

– 23/07/1840: um jovem de 14 anos foi empossado Rei, naquele que foi intitulado ”Golpe da Maioridade”.

– 15/11/1889: contraditoriamente, um monarquista convicto proclamou a República em um golpe civil-militar.

– 03/11/1891: o presidente, da recém proclamada República, fecha o Congresso em um autogolpe disfarçado de Estado de Sítio.

– 24/10/1930: um golpe civil-militar inseriu o Brasil em uma ditadura de quatro anos, autoproclamada “Revolução de 30”.

– 10/11/1937: um autogolpe inseriu o país em uma ditadura protofascista que durou nove anos.

– 29/10/1945: o próprio presidente golpista foi afastado do governo pelas forças armadas, que outrora o apoiara.

– 11/11/1955: um golpe preventivo, ou contragolpe, foi arquitetado por um general das forças armadas para impedir que o próprio presidente, junto a alguns congressistas, desse um golpe de Estado.

– 08/09/1961: o vice presidente, eleito democraticamente, foi impedido de governar, sendo subjugado por um parlamentarismo provisório improvisado.

– 01/04/1964: parece mentira, mas outro golpe civil-militar foi implantado, resgatando o fascismo incubado na memória dos ditos “homens de bem”.

-31/08/1969: o vice presidente civil, em meio a uma ditadura, foi impedido de governar por uma Junta Militar das Forças Armadas.

-15/03/1985: o vice presidente assumiu o poder sem que o presidente eleito – indiretamente, diga-se de passagem – sequer tivesse tomado posse, representando, assim, um nó górdio na história constitucional do país até hoje.

-30/12/1992: depois de um hiato eleitoral democrático de 29 anos, o então presidente da República foi “impeachmado”, mesmo este tendo renunciado ao cargo um dia antes.

-31/08/2016: oficializou-se o impeachment da primeira mulher eleita presidente do Brasil. Para muitos, um golpe travestido de democracia.

Nesta auditoria da breve História do Brasil Republicano, priorizei, propositalmente, os fatos aos atores históricos. Afinal, mudam-se os currais, mas o gado é sempre o mesmo. Deixando o passado de lado e conjecturando sobre o futuro, em se tratando de Brasil, é possível antecipar os fatos. Basta conhecer a história. Acompanhe!

No próximo dia 15 de março, uma aparente manifestação popular de parte dos setores da Direita está programada para acontecer em defesa do atual presidente da República. Uns dizem se tratar de um mero apoio ao estadista (Como? Por quê? Pra quê?), outros endossam um deliberado ataque ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Das duas uma, ou o presidente mitificado precisa ser venerado, o que nos conduziria a uma perigosa confusão entre política e religião, ou o Congresso e o STF estão cumprindo legitimamente sua função de contrapesos na balança do Estado Democrático, o que tem afetado a vaidade de um governo autoproclamado ilibado, incorruptível. Há de se destacar que, como em outros verões passados, tal movimento está alicerçado em grupos militares que garantem proteger a moralidade e a democracia.

Coincidência ou ironia do destino, nas narrativas históricas do Brasil, o mês de março traduz um fatídico legado. Foi em março que o primeiro Rei do país outorgou a Carta Magna de 1824 depois de ter dissolvido o Congresso. Aliás, é por essa razão que se comemora em março o Dia Nacional da Constituição. Seria um deboche? Também em março que se forjou um malfadado golpe de Estado em 1964. Exatamente em um 15 de março, três presidentes ditadores tomaram posse do governo, respectivamente em 1967, 1974 e 1979.

Que as águas de março fechem o verão, mas mantenham abertos os olhos dos justos para que o pau e a pedra não interrompam, novamente, nosso caminho.

Parafraseando o poeta Cazuza, “eu vejo o futuro repetir o passado”. Nas duas circunstâncias a democracia estará em risco e o temerário vírus da autocracia se desincubará. Fiéis hospedeiros não faltarão para propalar o inevitável.

É, caro leitor, como bem expressou o glorioso Tom Jobim “o Brasil não é para principiantes”.

Dá para imaginar como essa história pode continuar de hoje em diante?

Parodiando o velho adágio popular: para bom entendedor, MEIA PORRADA basta!

*Davidson Abdulah é graduado em História pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pós-graduado lato sensu em História e Ensino também pela Universidade Federal do Espírito Santo. Realizou alguns trabalhos como historiador na área de Memória Empresarial, inclusive com livro publicado.

Em 2020 completa vinte anos em sala de aula como professor de História na rede privada de Vitória. Recentemente foi homenageado pela Câmara Municipal de Vitória pelos serviços prestados em favor da educação neste mesmo município. Tem a música como terapia e a fotografia como hobby.

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