#Opinião – É hora do Porta dos Fundos

Não sou de assistir programas humorísticos. Na verdade, meus alunos, filhos e sobrinhos é que costumam me mostrar um ou outro vídeo engraçado, que aprecio, mas não costumo procurar para ver.

Porta dos Fundos, uma das melhores produtoras de vídeo de humor do Brasil, sempre me chamou atenção pelo que produziu e, embora eu não buscasse, não deixei de elogiar algumas de suas produções, sobretudo as de inspiração histórica.

No período Natalino, falaram muito de uma produção da Porta dos Fundos em que, para algumas pessoas, a imagem de Jesus não estava, digamos… de acordo com o que imaginam. Pelo que li, Jesus era retratado como Gay. Não procurei assistir o vídeo, primeiro pelo tema Bíblico, que não me apetece, pouco atrativo ao meu gosto. Segundo porque retratar Jesus ou qualquer personagem histórico disso ou daquilo, é problema de quem está retratando e de quem é retratado. Em outras palavras, se não gostou, não assista – eu não assisti por preguiça e falta de interesse em programas de humor.

Na véspera do Natal, quando a chatice religiosa condenando o programa já tinha passado dos limites, bombas do tipo “coquetel molotov” foram arremessadas na sede da Porta dos Fundos.

Como grupos evangélicos, tipo Bonde de Jesus, Milícia de Deus, Guerreiros de Judá e outras aberrações, há muito tempo vêm agredindo e até destruindo espaços de outras religiões, em especial as de matriz africana, fiquei mais apreensivo, pois nesse caso já se tratava de defender algo que eles confundem com fé, usando violência.

Pouco tempo depois, um grupo se dizendo integralista (movimento de inspiração fascista que existiu na década de 1930 no Brasil), usando símbolos do antigo Movimento Integralista Brasileiro e monarquistas, com um discurso que evocava o tradicional “Deus, Pátria Família”, assumiu o atentado contra a produtora.

Sem surpreender ninguém, as autoridades maiores do país, seja o presidente ou seu ministro da Justiça, nem se pronunciaram, enquanto a polícia achava que não se tratava de um atentado.

Isso sim é mais grave do que qualquer programa do Porta dos Fundos, pois essa atitude é um ato de repressão daqueles que, travestidos de “cristãos” ou fazendo o papel das autoridades – ou seja, “milicianos” -, se consideram acima do bem e do mal para julgar sem julgamento e executar sem autoridade.

Pior quando as autoridades de um país multicultural e multirreligioso se omitem, dando uma autorização por omissão a esse tipo de absurdo.

Se não gostaram do programa Porta dos Fundos, não assistam, questionem, façam algo melhor, diferente, dentro de sua forma de pensar, etc. Mas nada justifica uma ação perpetrada por um grupo que se diz representante de uma época e de um pensamento que não legou nada de bom à humanidade.

Um grupo que, como muitas coisas estranhas que estão retornando, nos faz pensar que uma nova “Idade das Trevas” é, sim, possível.

Defender a ilegalidade e a repressão desses “neo-integralistas” é, antes de tudo, cuspir para cima, pois esse mal pode se voltar contra nossa sociedade, como no passado, em que eventos similares ocorreram em países até considerados, como Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Brasil.

Nessa briga entre a legalidade/liberdade de expressão contra a ilegalidade/repressão, o lado de todos deve ser o da Porta dos Fundos, pois o que está na “porta da frente” é algo que ficou no fundo da História, no esgoto da humanidade.

*Marcelo Abreu Gomes é professor de História das redes pública e privada de Conceição de Macabu e Macaé há 27 anos. Formado pela FAFIC – Campos dos Goytacazes, especializou-se em Educação pela PUC-RJ (pós-graduação) e pelo consórcio UAA-Jaén/Py-Es (Mestrado e Doutorado). Pesquisador com concentração em História da região Norte Fluminense, trabalhou para o cinema, teatro, carnaval, televisões aberta e a cabo, revistas e jornais. Participou como pesquisador em trabalhos que deram origem a cinco livros, publicou outros seis livros, quase todos sobre Conceição de Macabu, com pesquisas que o levaram a bibliotecas, arquivos e pessoas em todo o Rio de Janeiro, além de outros estados e países.

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