#Opinião – A China e o corona vírus

A China, organizações internacionais e países têm tomado todas as providências cabíveis para remediar o problema do coronavírus. Por parte do governo chinês, inúmeras medidas visando abafar a transmissão do vírus. Organizações internacionais, promovendo intensas campanhas de educação, pesquisas e coletas de dados. Países, controlando fluxos migratórios e recolhendo seus cidadãos no próprio país chinês. Tudo indica que até abril teremos vacinas disponíveis, bem como o controle quase efetivo do surto. Mas essa situação nos abre espaço para discutirmos o Estado Chinês sob novas perspectivas.

A China é um Estado socialista e sob hipótese alguma poderá ser considerado um Estado capitalista. Tampouco uma democracia. Somente uma retórica de ocasião, direcionada a um fim, justificaria atribuir à China essas duas característica, que, aliás, o partido que governa o país nunca desejou exibir. O Estado chinês é justamente aquilo que o capitalismo sempre negou e o neoliberalismo desconhece como útil: um Estado máximo, de um lado, e um indivíduo mínimo, de outro.

O Partido Comunista Chinês é absoluto, pois sua liderança é incontestável. Não existe uma real alternância no poder, senão para os líderes do Partido, cuja liderança e comando não pode ser contestada ou atacada, nem mesmo entre correligionários.

Xi Jinping é muito próximo a um ditador institucionalizado. É inamovível, constitucionalmente eternizado como Presidente da China para toda a eternidade, e somente sua morte poderia fazê-lo deixar de ser “um excelente líder”, “um bom chinês” e “grande patriota”. Em contrapartida, nada na racionalidade política democrática poderia demostrar que ele é um “escolhido” e, por isso, único capaz de conduzir a China e o povo chinês à prosperidade. Da mesma forma, nada poderia garantir que o Partido Comunista Chinês e seu programa são a única alternativa para China e o povo chinês ser próspero, grande e livre.

A China exerce soberania sobre dois sistemas econômicos: tem uma economia com mercado, porém não é um Estado de Direito, uma democracia política, nem mesmo uma economia de mercado democrática, onde o pilar básico é o indivíduo e sua livre iniciativa.

O Estado chinês é intervencionista, “paquidérmico”, que tudo controla e ao qual todos devem estar submetidos e ante ele submergidos.

O fato da China exibir um crescimento econômico notável por mais de 20 anos, ocupar o segundo lugar entre as economias do mundo, ser o principal sócio comercial de muitas economias e eixo principal do comércio mundial, e até uma referência em eficácia gerencial, não obsta o fato do regime ser identificado como não-democrático, autoritário e vilão dos direitos e liberdades políticas dos cidadãos. Pessoalmente, reconheço positivamente a assombrosa capacidade de construir um hospital de 1000 leitos em 10 dias e a reação oficial para impedir a extensão do coronavírus, mas, como não ter em conta que um jovem médico foi punido por anunciar, à margem do oficialismo, a vinda de uma epidemia, pela qual, aliás, morreu? Ou que o gerente político-partidário da Província de Hubei foi demitido sem trâmites?

O surto do coronavírus apareceu na China por acaso, como poderia ocorrer em qualquer outra comunidade. As autoridades chinesas agem para seu controle e erradicação. Mas, à parte disso, fato é que a socialização democrática do poder propiciaria a intervenção de todas as potencialidades sociais e permitiria a identificação de erros de gestão institucional, ademais das possíveis falhas cometidas por funcionários do Partido.

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