O que a História pode nos ensinar sobre crises?

No último domingo (29), participei de um festival de cultura transmitido pela internet com o objetivo de reunir nomes que trabalham com os mais diferentes tipos de manifestações culturais. O Festival Fico Em Casa teve como finalidade incentivar o cumprimento da quarentena proposta pelo governo estadual com o intuito de conter o avanço do coronavírus. Como historiador que sou, propus uma fala sobre as lições que a História nos dá sobre como enfrentar crises.

Philippe Àries, em O Homem Diante da Morte, analisa a angústia sentida por algumas pessoas de não estarem vivenciando a História. O autor aborda que, em algumas épocas, a impressão que a sociedade tem é a de que não está ocorrendo nenhum fato relevante a ponto de ser considerado um fato histórico. Essa definitivamente foi uma questão constante na geração que viveu pós-queda do Muro de Berlim. A impressão que tínhamos era que a História que aprendemos nos livros tinha ficado para trás e que os homens e mulheres do passado é que tinham verdadeiramente levado uma vida de resiliência para construírem, para nossa geração, um mundo mais estável. Essa decepção por não vivermos a História propriamente dita começou a ser rompida com o 11 de setembro (2001). Talvez isso explique a euforia de assistir e reassistir aquelas cenas e do impacto que teve sobre minha geração – era a primeira vez que vivenciávamos a História com consciência de nós mesmos. Todavia, sobretudo a partir de 2010, a História começou a ser implacável e essa geração começa a perceber que vivenciar os fatos históricos é algo bem mais trabalhoso a romântico.

Podemos classificar as crises na História em três tipos: econômicas, sanitárias (de saúde) e/ou militares.

Dentre as maiores crises podemos destacar:

  1. Econômicas – a crise de 1929, as crises do petróleo (década de 1970), a crise do subprime de 2008;
  2. Sanitárias – a peste bubônica (século XIV), a cólera (século XIX), a gripe espanhola (1918-19);
  3. Militares – as grandes guerras do século XX (1914 – 1945) e as várias turbulências do período de Guerra Fria (1945 – 1989).

Em todas elas, as saídas encontradas sempre foram pautadas na coletividade – o Plano Marshall, o New Deal ou as campanhas de contenção do influenza, todos os projetos fugiam das esferas egoístas e individualistas e buscaram soluções coletivas para a sociedade. Só saímos de crises quando trabalhamos juntos!

Além de trabalhar juntos e afastando-nos da filosofia do “salve-se quem puder”, foi apostando as fichas na Ciência (e me refiro a todos os campos da Ciência) e em uma gestão estatal sóbria e pautada na solidariedade que as crises foram superadas.

O COVID-19 faz abater sobre nós a pior crise do século XXI e talvez uma das maiores crises da História Geral. A pergunta que fica é: como estamos nos sentindo? Solidários ou egoístas?

Para vencermos essa crise, sobretudo olhando para o nosso país, o primeiro passo é vencer esse Estado de necropolítica que se estabeleceu aqui e que pretende que o povo seja nada mais que a lenha que mantenha acesa o grande capital nacional e internacional.

Durante o surto de gripe espanhola, há vários documentos falando da propagação de informações falsas no que diz respeito à doença[1], mas, há um século, as fake news eram fruto da desinformação e do não acesso à Ciência. Hoje, pelo contrário, a desinformação é fruto de um projeto político de poder que se fundamenta em narrativas e não em fatos. Não falta acesso à informação e à Ciência, o que ocorre é a negação do pensamento científico para sustentar os mais diversos absurdos na política e na economia, além de pregar uma reforma moral conservadora.

Tivemos, inclusive, nossa “versão século XXI” da Revolta da Vacina: a Carreata da Morte, que ocorreu no último sábado (28), incentivada pelo Presidente e seus filhos e que aglutinou uma classe média egoísta e pouco letrada em torno do fim da quarentena.

Venceremos essa crise se, e somente se, o fizermos para salvar a maioria das vidas possíveis. Por isso, é hora de exigirmos que o Estado se comporte como tal, destinando recursos ao povo, porque não existe economia sem as pessoas.

Termino com um texto de Bertold Brecth para refletirmos: o que diremos para os que vierem depois de nós?

Que tempos são esses,
Quando falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
Já está então inacessível aos amigos
Que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
Se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?

Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
E sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
Pagar o mal com o bem,
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

II

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
Quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta
E me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
Deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
E não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
Que me foi dado viver sobre a terra.

III

Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
Mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
Faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
Que queríamos preparar o caminho para a amizade,
Não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
Em que o homem faça bem a outro homem,
Pensem em nós
Com indulgência.

[1] https://portal.fiocruz.br/noticia/fake-news-circularam-na-imprensa-durante-surto-de-gripe-espanhola-no-rio-em-1918

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