O Fim do Homo Sapiens – as bolhas virtuais e a pós-verdade

Em meu último livro, “A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro”, abordei a ascensão das novas direitas, diretamente relacionada a uma nova forma de fazer política, baseada no uso das redes sociais e na difusão de conceitos que chamamos de pós-verdades – a narrativa aparece como mais importante que o fato.

Para compor o quadro teórico, eu trouxe “A extinção do Homo Sapiens – o homem que não pensa”, obra do americano Franklin Foer, que trabalha com a perspectiva de que estamos delegando nossa capacidade de pensar à inteligência artificial. É como se terceirizássemos nosso intelecto para as grandes empresas de tecnologia de informação, as quais, graças a tudo que oferecemos a elas sobre nós mesmos (trajetos, gostos musicais e culinários, padrões de consumo, amizades etc.) acabam por definir nosso cotidiano. Se antes, na origem das redes sociais, nós oferecemos certos padrões, agora são elas que nos oferecem esses padrões, essas preferências.

Em suma, os algoritmos das redes sociais acabam por girar sempre dentro desse nicho de preferências que a tecnologia julga que vamos querer consumir. Assim, tendem a aparecer em seu perfil pessoas que pensam como você, se vestem como você, viajam para os mesmos lugares, fazem as mesmas fotos – nas mesmas posições e com as mesmas hashtags –, eliminando o contato com o contraditório e padronizando o comportamento humano em bolhas.

Quando as redes sociais começaram a ganhar impulso, lá nos tempos do jurássico Orkut, levantávamos, ainda incipientes na compreensão da tecnologia da informação, teorias distópicas do seguinte gênero: “já pensaram se algum grupo autoritário chegar ao poder e tiver em mãos todas essas informações que oferecemos sobre nós mesmos?”. Todavia, essa formulação está equivocada. O mais correto seria inverter a ordem: “já pensaram se toda essa informação que oferecemos sobre nós mesmos ajudasse a conduzir ao poder grupos autoritários?”.

As novas extremas direitas (far-rigth) foram as primeiras a compreender o potencial político das redes sociais e, principalmente, do comportamento dos algoritmos. Enquanto regimes autoritários de esquerda – como China e Coreia do Norte – optaram, uma vez já instalados no poder, por controlar a circulação de informações das redes sociais, os grupos (neo)fascistas da extrema direita, que se reúnem em torno do The Moviment, movimento ultraconservador liderado por Steve Bannon, optaram por utilizar as redes sociais e os algoritmos para mapear perfis comportamentais conservadores propensos a serem recodificados para apoiarem projetos extremistas.

Bannon, líder do The Moviment, é também fundador da Cambridge Analytica, empresa de informação que ofereceu serviços para a campanha de Trump (EUA), Orbán (Hungria), Le Penn (França), Abascal (Espanha), Salvini (Itália) e, seu mais vitorioso case, Bolsonaro (Brasil).

Todos esses políticos ultraconservadores, populistas de direita para alguns, fascistas em potencial para outros, seguiram a mesma linha de atuação em suas campanhas – e alguns, como Trump e Bolsonaro, mesmo após eleitos, continuam a seguir essa linha:

  • Descreditar a imprensa oficial e as universidades;
  • Enaltecer ideólogos possuidores da “verdade absoluta”;
  • Levantar teorias conspiratórias e inimigos comuns;
  • Impulsionar tais teorias por intermédio dos perfis dos ideólogos, dentro das bolhas virtuais compostas por pessoas cujo perfil as predispõem a acreditar em teorias desse tipo.

A utilização de tecnologia da informação para mapear os perfis conservadores e impulsionar uma guerra híbrida contra quem se pretende derrotar foi o grande trunfo das novas extremas direitas para promover essa onda conservadora global: os ricos, com intuito de amplificarem seus lucros a partir do achatamento dos direitos trabalhistas e das privatizações; a classe média, pela difusão da utopia meritocrática e da ampliação do seu poder de compra; e até os mais pobres, estes geralmente propensos ao conservadorismo por razões de cunho moral (contrários ao feminismo, aos direitos dos homossexuais etc.).

Parem um instante a leitura do texto e olhem atentamente a imagem acima por alguns minutos. Ela foi extraída do twitter no último 18 de março, quando tivemos o primeiro panelaço contra Bolsonaro a furar as bolhas e chegar à classe média, organicamente sua base mais militante.

Basicamente, como funciona o algoritmo? Quando uma pessoa, por suas preferências de pesquisas e perfis, tuítes e respostas, encaixa-se em uma bolha, ela só recebe informações dessa bolha ou de bolhas próximas. Isso gera, nessa pessoa, a sensação de que ela é a possuidora da verdade e que todos aqueles que estão longe dessa sua verdade são desinformados, alienados ou canalhas.

Vamos analisar pelas cores:

  • O verde claro é a mancha dos perfis bolsonaristas. Reparem que existem as macrobolhas (Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli etc.), as bolhas médias (Feliciano, Ruschel, Jordy etc.), as pequenas (Milton Neves, Roger Flores etc.) e até as nanobolhas das pessoas desconhecidas do grande público. Quanto mais à direita, mais extremista é o discurso dessas bolhas;
  • O campo progressista está pintado de azul e rosa-choque. Reparem como se misturam. No campo azul, está a esquerda e a centro-esquerda partidária, bem como perfis de artistas simpatizantes; o campo rosa reúne aqueles que compõe uma pauta progressista nos costumes, desde indivíduos de esquerda até liberais que, apesar das divergências no campo econômico, são contra as pautas conversadoras do governo;
  • Reparem também que as demais cores, com suas esferas próprias e algumas bem grandes, se misturam entre si e até com o azul e o rosa, mas nunca com o verde claro, o que mostra o grau de extremismo do bolsonarismo (ame ou odeie, no dito popular);
  • A bolha bolsonarista, neste evento em particular, ocupou apenas 16% das interações do Twitter, mostrando que ela não é a maioria da opinião pública, como Bolsonaro e os filhos costumam dizer. A maneira fortemente ideologizada pela qual o presidente governa, faz como que ele atenda apenas a sua militância mais orgânica e radical. Podemos concluir que ele está voltando a possuir aquele percentual que a extrema direita sempre teve nos pleitos por aqui, oscilando entre 10% e 20%. Todavia, a diferença do bolsonarismo é que a forma de governar do presidente deixa esse percentual de 16% em posição de alerta constante para manifestar apoio ao presidente. Antes da CPI das fake news, o uso de robôs era mais descarado e essa militância de 16% parecia ser 70%. No entanto, o movimento antiCongresso, que o presidente convocou para o dia 15 de março, já mostrava que essa maioria virtual não se configura como maioria física nas ruas.

O que a nova extrema direita vitoriosa nas últimas eleições fez foi exatamente conseguir “furar a bolha”, ou seja, sair do verde claro e angariar apoiadores das demais cores – um pouco menos entre azuis e rosas. Ao que parece, a maneira de fazer política do presidente e seus ministros está gerando descrédito e suas bolhas estão encolhendo e achatando. Não é possível utilizar esse dado como equação perfeita para decretar o fim iminente do bolsonarismo, mas é possível analisar o fluxo das redes para fazer uma campanha que fure as bolhas, desta vez para evitar que extremistas o façam.

Mas como furar a bolha? Esse será o tema do próximo artigo.

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