Maradona

A bola desliza suavemente pela grama marcada de guerra e quando menos se espera lá estão dois ingleses como sedentos animais atrás de carne fresca.

Entram ferozes, mas são enganados pelo Pibe, que parte com ela pelo lado direito do campo.

Para delírio do estádio e dos narradores, foram mais seis ingleses ao chão, quando finalmente conseguem derrubar Diego já na área, mas não sem que antes ele desfira uma leve sapatada na bola, que corre rasteira até o gol.

A Argentina, de punho apertado, celebra o gol do século, enquanto os narradores vibram o gol – dramático como tango bom de Buenos Aires.

Ah… aquele gol… era como se Diego tivesse escrito As Veias Abertas da América Latina com os pés, quando impõe limite à soberba britânica que ainda sentia o gosto do sangue portenho que escorria das Malvinas.

Quem se entende como latinoamericano ama Maradona.

E ama, não apenas pelas suas jogadas serem como a literatura complexa de Cortázar, mas por ele levar a Pátria Grande na vida, misturando ao mito do esporte o sonho pela libertação verdadeira da América. É o Bolívar do futebol!

Não cabe a mim análise da técnica de Pelé ou Maradona. Pelé foi melhor? Tecnicamente? Ok, que digam os entendidos. Mas Diego foi “más grande”. E foi por levar consigo as dores do povo. Pode ser o segundo do mundo no talento, mas, de longe, foi o número um em importância simbólica. Aqui, no Brasil, só a geração de 1982 teve algo parecido, liderado por Dr. Sócrates – nunca mais…

Maradona não era só argentino. Maradona era um patrimônio mundial do futebol, mas um patrimônio humano da luta política latinoamericanista.

Politizaram a morte de Diego, disseram. Que bom, já que ele politizou seu futebol e, antes disso, sua vida.

Tão difícil era suportar as dores do mundo, Diego deixou se tocar pela maldição do vício. Certamente não se trata de fraqueza, mas de excesso de sensibilidade. Sensibilidade essa que sobrava em campo, por isso lhe idolatram na Argentina como um semideus – ele se entregava ao jogo como se aquilo fosse sua própria honra e orgulho de ser argentino. Não como os meninos milionários de amarelo-canarinho que trazem só a ostentação dos dólares e a obrigação dos patrocinadores, mas nenhum brio e raça para defenderem seu estandarte.

Maradona. Eu adorava odiá-lo contra nós. Como é digno ter um adversário que lhe honre com uma boa briga. Vencer o fácil não tem o mesmo gosto.

Como eu torcia por Diego, assim como torço por todos os irmãos de latinoamérica quando já não estávamos no páreo. Somos Pátria Grande e Diego assim sabia: tinha Cuba, Venezuela, Bolívia, Brasil na pele.

Infelizmente a maioria de nós, brasileiros, não se enxerga e se reconhece latinoamericano. Infelizmente a maioria confunda a rivalidade esportiva com a inimizade geopolítica. Infelizmente tentam destruir a memória de Diego usando a doença dele com as drogas.

Curiosamente os que zombam do adicto Maradona, votaram em peso para que um adicto fosse eleito presidente do Brasil. Eis que se revela que a régua moral é torta.

Maradona me fez gostar de futebol. Foi o maior que vi ainda criança. Foi alguém que admirei quando tomei consciência de mim como ser político latinoamericanista. Foi alguém que não se conformou com seus milhões e seus carros de luxo. Estava levantando a voz contra golpes de estado, contra o imperialismo estadunidense, ao lado de movimentos populares.

2020 foi um ano triste, agora, sem Diego, um ano mais covarde.

A mim, vai parte da minha infância. Parece que perdi um conhecido. Não tive essa honra, mas certamente perdi um camarada.

Hasta siempre, Hermano!

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