Eu pensei que íamos cantar das janelas

Eu pensei que íamos cantar das janelas.

Eu pensei que íamos chorar juntos, uns pelos outros. Sentindo a dor do próximo, mesmo que não tão próximos…

Mas eu realmente pensei que íamos cantar das janelas.

Quando li um meme que dizia que cantaríamos “Evidências”, ironizando o fato dos italianos entoarem orgulhosos o “Bella Ciao”, eu pensei que íamos cantar das janelas.

Uns até cantaram pelas janelas seus louvores. Outros tocaram sax, piano, violão… Lá em março, eu pensei que ficaríamos dois ou três meses agoniados, tristes, sóbrios – ainda que bêbados – mas hoje, cinco meses depois, não vejo mais ninguém a cantar das janelas.

Não vejo mais muita gente agoniada, inquieta, como se o peso da História estivesse pesando demais os ombros. Sabem aquela sensação que tínhamos em março? Aquela que estávamos vivendo um período histórico do qual nos lembraríamos para contar para os filhos, netos…

O que vamos contar dessa época senão que fizemos do caos a nova normalidade?

Novo normal. Expressão mais sem fundamento para nós, brasileiros.

Lá no começo da pandemia trancado em casa, eu via nos amontoados de vidros e varandas que me cercam certa movimentação doméstica. As crianças e os bichos não estavam nas ruas.

Anunciava um tempo de sacrifício e solidão.

Abnegação.

Medo. Quando precisava sair. Ao chegarem as compras. De perder a renda. Medo. Medo da morte. Da minha e dos meus. Meus amigos, meus colegas, meus compatriotas.

Parecia mesmo que íamos cantar das janelas, ainda que fosse aquela música piegas ou outra jocosa – típica da nossa brasilidade.

Devagar, o anjo da História foi voando para bem longe e o novo normal virou apenas o mesmo normal, porém de máscaras.

Eu pensei que íamos cantar das janelas. Enlutados. Enjaulados.

Experimentado de tempos difíceis eu pensei que essa pandemia seria uma transição do tempo.

Era o que parecia lá em março. Live atrás de live. Solidariedade. Oportunismo, às vezes. Todavia juntos. Aplausos das varandas para os da linha de frente me fizeram pensar que cantaríamos das janelas. Canções chorosas e orgulhosas que pintariam os Instagrams de melancolia e daquela sensação de que teríamos, ao final, a vitória.

Achei que nos espantariam cem mil mortos – ou talvez mais – em cinco meses.

Batemos a bomba de Hiroshima e estamos partindo para a de Nagasaki. E não estamos cantando das janelas.

Não deu tempo de sentir saudade por que pela saudade as ruas foram tomadas. Assim como foram tomadas pela sobrevivência de uns e pela ganância de outros.

Lucro em espanhol é ganância.

Essa tomou mesmo as ruas. Montada nas SUV’s enfileiradas, barulhentas e verde-amarelas – que enaltecem ao führer dos trópicos inebriados de indiferença e apatia.

Não deu tempo de aprender com a saudade, pois mesmo aqueles do “fica em casa” não ficaram. Exibiam seus sociais e suas praias com certa vergonha, tentando escondê-las atrás de um tebetê na legenda da foto.

Depois perderam a vergonha e se juntaram aos que jamais a tiveram.

E eu pensei que cantaríamos das janelas até o momento que gritaríamos, como um gol de final de Copa, o fim da pandemia, da quarentena, do isolamento.

Na minha idealização, viria com a música do plantão da Globo anunciando coletiva do governador que, ao fazer o anúncio, remeter-nos-ia a final de filme americano, quando se expulsa os et’s invasores, ou quando se conclama a população que sobreviveu ao apocalipse.

Gritaríamos da varanda. Sairíamos pelas ruas nos abraçando uns aos outros e matando a saudade de, literalmente, ser humano. Abriríamos ali a cortina que nos separa da vida social em prol da rede social.

Igreja para quem fosse de igreja. Bar para quem fosse de bar. Os dois para quem fosse dos dois.

Por um flash de otimismo, pensei que, no momento que anunciassem o fim da quarentena, nós recuperaríamos o simbolismo alegre do verde-amarelo, dando força aos que perderam alguém para o vírus, esperança para os que perderam o emprego, o negócio, a sanidade…

Aquele abraço apertado de quem há muito não se via – como se tivesse acabado de desmoronar um muro de Berlim.

Lembrei, porém, que não sou otimista – sou historiador.

Ninguém avisou que a quarentena e o isolamento acabaram. As pessoas simplesmente decidiram isso.

Decidiram conviver com os mortos. Ignorar os mortos.

Decidiram pela ganância – lucro, em português.

Decidiram pela negação. Negacionismo.

Obscuro. Mais um “ismo”.

Egoísmo.

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