E os artistas sobem ao palco (Side B)

Por Thiago Goulart – Professor e Jornalista

No texto anterior, Village Vanguard: o templo do jazz, fizemos o mapeamento do jazz em Manhattan saindo lentamente do Harlem e indo em direção ao Greenwich Village. Também vimos a consolidação do Village Vanguard como a casa noturna dos artistas. E, por fim, mostramos a resiliência e o senso de oportunidade de Max Gordon, seu fundador.

Agora, iremos nos lançar ao palco do Vanguard, acompanhando os artistas que por ali passaram e ainda passam. Vamos lá?

The Revuers

Uma das pontas relevantes da carreira de todo artista atende pelo nome de crítica. Não que ela seja vital, mas os críticos ajudam a construir ou a derrubar reputações. Os espaços por onde os artistas se apresentam também são alvos do olhar clínico dos críticos. Foi assim que o Vanguard começou a ter presença nos jornais americanos.

Dick Manson foi o primeiro a assinalar o nightclub. Com o título The Revuers, a publicação havia saído no jornal New York Post, abordando o sucesso de um grupo de jovens do Departamento de Teatro da Universidade de Nova York, cujo espetáculo chamava-se “Judy and The Kids”.

A frequência do público permitiu ao proprietário Max Gordon realizar dois shows por noite. Subsequente aos atores entraria a figura lendária do Blues, Huddie Ledbetter, conhecido como Leadbelly.

Essa dose dupla das noites em Manhattan referendou o Village Vanguard como uma casa de espetáculo de grosso calibre.

E os artistas sobem ao palco

Muitos foram os artistas que passaram pelo palco do Vanguard e se transformaram em estrelas de primeira ordem.

Alguns exemplos foram os comediantes que atuaram também em outro estabelecimento que Gordon adquirira com o sócio Herb Jacobi, o Blue Angel, localizado no elegante bairro Upper East Side, em 1943, fechando as portas 20 anos depois.

Figuravam, por exemplo, entre a trupe do stand up comedy:

. Elaine May, futura escritora em Hollywood;

. Mike Nichols que posteriormente tornou-se diretor da Broadway;

. O escritor até então de gags Woody Allen que dispensa apresentação pelos eternos filmes dirigidos, como “Manhattan” (1979);

. Além do mordaz e cáustico comediante Lenny Bruce.

Jazzistas

Somente no fim dos anos 60 que o Vanguard começou a dedicar-se especialmente ao jazz. Transitaram por ali com contratos firmados Sonny Rollins, Miles Davis, Charles Mingus, John Coltrane, Thelonious Monk, Thad Jones, Mel Lewis, Harbie Hancock, Chick Corea, Keith Jarrett etc.

Os nomes continuariam se listássemos as gravações ao vivo também históricas, às quais podem ser ouvidas nesse instante (só clicar nos discos):

. Gerry Mulligan and The Concert Jazz Band at The Village Vanguard;

. Bill Evans Trio – Waltz for Debby;

. The Cannonball Adderley Sextet in New York;

. Elvin Jones Trio – Live at The Village Vanguard;

. Thad Jones & Mel Lewis – Live at The Village Vanguard.

Isso somente para enumerar alguns dos mais de 100 álbuns gravados no melhor estilo e técnica que os ouvintes de jazz exigem. Nesses encontros e espetáculos com a intelligentsia do jazz, Max Gordon escutou e vivenciou muitas histórias.

Pannonica e Monk

Por exemplo, ao lado da cozinha do Vanguard, onde funcionava o escritório, a baronesa do jazz, Pannonica Rothschild, revelou a surra que Thelonious Monk levou de dois policiais, quando ela, Monk e Charlie Rouse (saxofonista tenor) haviam parado de carro a fim de tomar uma água num bar à beira da estrada em Newcastle, no estado de Delaware.

O objetivo era chegar a Baltimore, local da apresentação do quarteto de Monk. Os três foram presos como traficantes, depois liberados e o show não aconteceu.

Rollins

Houve um momento em que para ouvir Sonny Rollins era necessário ir ao Village Vanguard. No auge, não havia concorrentes para Rollins.

De fato ele foi o maior saxofonista tenor de sua geração e havia contemporâneos pesos pesados: Dexter Gordon, Billy Harper e Johnny Griffin.

Sonny tocou quatro vezes ao ano, ao longo de dez anos na casa, ou seja, se tornou um habitué do Vanguard.

Miles Davis

Outro que aparecia por lá sob contrato era Miles Davis. Só ia se recebesse adiantado. Gordon dizia que era o músico mais difícil de lidar.

No entanto, Miles era garantia de muito dinheiro em caixa. O local tinha de estar apropriado à maneira Miles de ser.

gyuhy
Miles Davis em gravação no estúdio.

Caso contrário, Gordon e seus funcionários recebiam um doce recado da voz roufenha do trompetista:

“Tire aquela porra de spot de cima dos meus olhos ou desligue essa merda de uma vez. Eu trabalho no escuro, se é assim que você vai operar sua casa”.

Mingus no contrabaixo

Charles Mingus tocou no Vanguard durante 20 anos. A primeira vez foi em 1958. Para se ter uma ideia da verve do contrabaixista, em julho de 1978 no gramado da Casa Branca o então presidente Jimmy Carter havia dado uma festa para comemorar o 25ª aniversário do Newport Jazz Festival.

Mingus já estava muito debilitado e de cadeira de rodas, quando o presidente se dirigiu a ele para apertar-lhe as mãos. O público que lotava o ambiente ficou em pé para ovacioná-lo.

Contudo, nem sempre esse ambiente com Mingus foi tranquilo, principalmente para George Wein, o produtor do Newport Jazz Festival. Este nunca havia convocado Mingus para se apresentar no evento, pois não o considerava bom o suficiente.

Por outro lado, o contrabaixista, famoso por não levar desaforo para casa montou seu próprio festival, ao lado de Newport, o Rhode Island que, por sua vez, começou a desbancar o de George.

Apesar dos contratempos, George Wein sabia do valor de Mingus, apresentando-lhe na Casa Branca como “o maior contrabaixista de jazz vivo no mundo”.

“O jazz não me deve nada”

Há muitas outras histórias que podem ser narradas, por alguém que se confunde com a própria história do jazz, possibilitando que muitas carreiras decolassem, destinando-se à posteridade.

Essa é somente uma das inúmeras virtudes de Max Gordon. Como ele mesmo diz, “a casa [Village Vanguard] tem vida própria. E é melhor o proprietário prestar atenção aos ritmos e necessidades mutáveis desta casa. Caso contrário, perde-se o calor”.

E sobre sua convicção no jazz, complementa: “O jazz não me deve nada. O jazz fez mais por mim do que eu fiz pelo jazz. Ele me manteve no ramo”. Assim é Max Gordon, assim é o Village Vanguard.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *