#Opinião – Desigualdade: uma pequena reflexão filosófica

“Tratai o desigual como igual, e terá a desigualdade. Tratai o desigual como desigual, para assim buscar a igualdade” (discurso de Maximillien Isidore de Robespierre à Convenção, França, 1793).

“Todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros” (letra da música dos Engenheiros do Hawaii, Brasil, 1993).

A condição para haver desigualdade é que existam “os iguais”. Um não existe senão em função do outro. É a dialética do espelho. Se os desiguais são os pobres, os ricos são os iguais. Mas iguais a quem, se eles são poucos? Quer dizer que ser igual é estar entre os poucos? Mas os poucos não seriam os diferentes? Se as desiguais são as mulheres, por que assim são? É uma questão de poder sobre a sociedade?

Muito se discutiu sobre desigualdade. Para os iluministas, igualdade era sobretudo jurídica. O contrário era a nobiliarquia do Antigo Regime. Rousseau, indo mais além, já era um crítico da propriedade excessiva. Isso se delineou melhor com Marx, que apontou a desigualdade econômica entre as classes como o câncer a ser superado. Assim, a desigualdade era da maioria desprovida em relação à minoria abastada. Nesse sentido, tal minoria encontrava recursos – ideológicos ou nos aparelhos de controle do Estado – para manter esta desigualdade.

Mas a desigualdade é restrita a meios econômicos, étnicos ou biológicos – no caso, o gênero – diferentes? Se partimos do pressuposto de que comunidades humanas são formadas pela interdependência de indivíduos, podemos concluir que uma configuração social é um padrão mutável criado na relação entre estes indivíduos no interior desta determinada comunidade e que estes padrões mutáveis podem gerar desigualdades dentro de alguns microcosmos – bairros, cidades, salas de aula, empresas. Tais desigualdades não estariam relacionadas a diferenças necessariamente econômicas, étnicas ou de gênero. Estas também podem existir, mas não são exclusivas, como pensaram os teóricos macromodelistas. Como explicar diferenças dentro de um ambiente de trabalho, uma sala de aula, ou um bairro, em que todos têm condições econômicas, étnicas, culturais semelhantes?

O que define uma relação comunitária são as ações de trabalhar, divertir, rezar, torcer e afins em comunhão com o outro, de modo organizado ou não. Mas podem ocorrer disputas de poder e de status no interior dessa comunidade. Nobert Elias afirma que em ordens sociais de extrema mobilidade é comum que as pessoas sejam extremamente sensíveis em relação a tudo que possa ameaçar sua posição, gerando angústias em relação ao status, ainda que esse status não tenha vínculos econômicos – como alunos, que disputam quem é o mais popular da escola; ou funcionários que se julgam parte mais importante de uma empresa pois estão lá a mais tempo que novatos.

É comum percebermos, dentro desses microcosmos, a criação de figurações, que são códigos, normalmente fundamentados em experiências passadas pelo grupo que se julga numa posição de status superior a outro. É o que Elias chama de estabelecidos versus outsiders. Nesta análise, aqueles que se julgam estabelecidos exercem seu “poder” dentro de figurações criadas por eles mesmos, e que não estão abertas aos novos. Para os desiguais, nesse caso, a sensação é de que esta é uma situação inelutável, levando-os à criação de suas próprias figurações. Um existe em função do outro, mas com um esteriótipo do que são os iguais e outro do que são os desiguais. Assim nasce um problema fundamentalmente humano: grupos sociais próximos e homogêneos também criam diferenças, mas desigualdades idealizadas – lutam pelo controle social e poder comunitário de status, tornando-se o “ubi” fundador da nossa subjetividade.

Será esse o ponto para explicar a classe média brasileira vista por ela própria, de dentro de suas bolhas? Se sim, sentindo-se “estabelecidos”, os membros da classe média brasileira votaram para garantir seu controle social contra os “outsiders”, ainda que a própria classe média seja vítima da desigualdade, ela não se reconhece assim, pela presença de vítimas mais agudas.

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