Como entender o discurso (neo) fascista?

CONSIDERAÇÕES INICIAIS (PODERIAM FAZER PARTE DO ROTEIRO DE UMA COMÉDIA DISTÓPICA…)

Em primeiro lugar, é preciso que nós nos dispamos de toda a tradição conceitual sobre o tema e sobre o que é um debate. O (neo) fascista brasileiro não se assume, na absoluta maioria das vezes, como tal – muitas vezes por desconhecer o conceito e a História do fascismo, muitas vezes porque sequer acredita possuir posições à (extrema) direita. Ele julga ser o normal de quem conseguiu se livrar das amarras ideológicas, impostas pela suposta doutrinação marxista.

Em segundo lugar, não espere um debate dentro dos moldes formais e polidos. O (neo) fascista brasileiro não conhece os bons modos no diálogo porque é novato na política (começou a se interessar após 2013), ou porque é possuidor dos vícios sociais do “brasileiro médio”: classe média, branco, heterossexual, que se mostra detentor de um comportamento pré-adolescente por quase toda a vida, pautado no cinismo, na chacota, no bullying. Não é raro de se ver, por exemplo, os membros do clã Bolsonaro e até ministros do governo, quando acuados, respondendo com categorias pejorativas comuns entre crianças do colegial – “você é feia, gordo, esquerdopata, isentão, gay, pergunta para sua mãe”.

Em terceiro lugar, é preciso, por sua vez, entender que há fascistas de fato, e com consciência de si, dentro do governo. Com esses, julgo o debate desnecessário, uma vez que, tendo consciência da ideologia que defendem, não correspondem àquela manada inconscientemente motivada a fazer o mal – como nos explicou Hannah Arendt –, mas sim àqueles que julgam necessária a postura violenta para promover verdadeiramente uma necropolítica em relação aos pobres, uma retomada de controle em relação às minorias insurgentes e uma criminalização da oposição à esquerda. Com esses não haverá diálogo, apenas enfrentamento.

Então, disputemos a narrativa com os “fascistas de última hora”, que não são os ideólogos do bolsonarismo, mas a massa de manobra deles. E quem são essas pessoas? (1) Evangélicos neopentecostais, vítimas psicológicas da tradição da culpa judaico-cristã que os torna vítimas fáceis dos inflamados e convincentes pastores que disseminam a necessidade de combater a “onda rosa”[2]; (2) a classe média, que se vê alijada do projeto de emancipação social impetrado nos governos petistas – o que pode ser explicado, como disse Jessé Souza, pelo racismo estrutural e a permanência de relações escravocratas na sociedade brasileira; (3) homens heterossexuais, que veem nesse tipo de abordagem política algo relacionado à virilidade; (4) homens de meia-idade e idosos, que foram os mais facilmente capturados pelas bolhas da Cambridge Analytica, de Steve Bannon[3]; (5) os antipetistas clássicos (ou lavajatistas ingênuos), que se inclinaram para o bolsonarismo por comprarem a retórica midiática de que “o PT quebrou o Brasil”, dentre outras.

CONCEITUANDO O FASCISMO (PRECISAMOS FALAR SÉRIO!)

Segundo Umberto Eco, no livro O Fascismo Eterno, o que caracteriza um discurso fascista é o constante culto às tradições e às raízes nacionais, o medo e a negação do diferente, um constante estado de ameaça, a exaltação da vontade popular, uma forte oposição a qualquer análise crítica que se faça a eles, uso de teorias de conspiração e criação de inimigos comuns a serem combatidos, repressão ao corpo e à sexualidade, linguagem limitada e repetitiva, apelo a uma classe social frustrada, excessivo militarismo, negação da arte e da ciência e proclamação de um líder máximo, um herói, visto como o salvador da pátria. Diferente do que muita gente pensa, o fascismo italiano antecedeu o nazismo alemão. Hitler é um subproduto de Mussolini, todavia é o exemplo clássico de “criatura que superou o criador”. A Alemanha levou o fascismo ao seu grau mais elevado de radicalismo, inserindo nele alguns outros tons, mais vinculados à ideia de superioridade racial, eugenia e antissemitismo.

No Brasil, todas essas características estão postas, à exceção do antissemitismo, pois o bolsonarismo propagandeia, muito pela ligação com a base evangélica, boa relação com o Estado de Israel e a comunidade judaica. Também não se pratica no Brasil atual um modelo econômico interventor como nos fascismos clássicos. O (neo)fascismo é mais à moda Pinochet, acompanhado de uma política econômica ultraliberal.

Muitas vezes sou perguntado se não se trata de anacronismo o uso do conceito de fascismo. Em meu último livro, analisei:

Recentemente, o jornal BBC de Londres, ao discutir esse tema trouxe o seguinte excerto: ‘O historiador Emilio Gentile é considerado na Itália o maior especialista vivo sobre o assunto. Autor de inúmeros livros sobre o período fascista, muitos deles adotados nas escolas italianas, ele afirma que utilizar o termo, como se tornou comum recentemente, é uma forma de confundir as ideias e não observar um fenômeno que, na verdade, tem a ver com a crise da democracia’. Para Gentile, os atuais grupos de extrema-direita tem mais relação com um neopopulismo conservador.”[4]

Todavia, continuo análise com outra interpretação que concorda com o uso da terminologia conceitual de fascismo para descrever o fenômeno do bolsonarismo:

“Percebe-se que há muitas características que ligam a atual extrema-direita ao tradicional nazifascismo europeu do século XX. Todavia, se o nacionalismo é propagado enquanto discurso, na prática ele não existe, atualmente, no campo econômico. Ainda que sejam contrários à globalização em um sentido amplo, a far right advoga em nome de uma política econômica liberal – e me refiro ao neoliberalismo de Friedman e Hayek – nos cenários internos. De modo que a supressão dos direitos trabalhistas, a imposição de uma lógica meritocrática de produtividade e a privatização de estatais são constantes discursos da extrema-direita recente. Domenico de Masi, sociólogo italiano que pesquisou o Brasil para compor seu best-seller O Futuro Chegou, afirma sobre Bolsonaro: ‘Ele tem inspiração fascista no que diz respeito à relação do Estado com a economia, entre o poder civil e militar, política e religião. E com base num conceito de autoritarismo, acha que pode resolver problemas complexos com receitas fáceis’”[5].

A NOVILÍNGUA DA NOVA EXTREMA-DIREITA BRASILEIRA

Para conversar com um fascista, como disse no início da comunicação, é necessário se despir do legado científico e filosófico ocidental. Despir-se não significa abandoná-lo, mas entender que o (neo)fascista brasileiro julga que opinião e conhecimento tem o mesmo valor – quando se trata da área das Ciências Humanas, é claro.

Ao analisar as jornadas de junho de 2013, em meu mais recente livro, demonstrei que quando as manifestações começaram a ser apropriadas pela direita, foi surgindo um discurso novo, que revisava de maneira irresponsável a História, a Filosofia, a Sociologia:

“Nascia aí a gênese de muitas organizações à direita, que assumiram um protagonismo maior entre 2014 e 2016, com destaque para o Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL), que abandonaram as pautas mais abrangentes e partiram para um antipetismo puro e simples, sobre a tradicional batuta que todos os problemas do Brasil eram causados pela corrupção e o PT era o partido que liderava a corrupção. Não era um partido, diziam eles, era uma organização criminosa. Sobretudo o MBL, formado basicamente por pessoas muito jovens e de classe média, astuto no uso das redes sociais, propagava um discurso que chamava de esquerdismo tudo que não é (neo)liberalismo. De modo a defender que esquerdismo é sinônimo de degradação dos valores morais – uma ‘inversão de valores’ – e corrupção. Esquerdismo virou xingamento. Ofensa grave no dicionário dessa nova direita. Também nessa espécie de novilíngua da nova direita, embaralhavam conceitos científicos para, propositalmente gerar confusão nas pessoas médias e pouco letradas: confundem socialismo, comunismo, nazismo, fascismo, liberalismo, democracia. Ressiguinificaram vários conceitos das Ciências Humanas, ao ponto de negarem o racismo, o feminismo e até a escravidão e, com a ferramenta virtual, empobreceram anos e anos de estudos históricos para criar um sentido novo, errado do ponto de vista científico, mas inteligível para aqueles que não leem ou não têm acesso à Universidade.”[6]

Novilíngua ou novafala é um idioma fictício criado pelo governo hiperautoritário da obra literária 1984, de George Orwell. A novilíngua era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela “condensação” e “remoção” delas, ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento.

Para conversar com um fascista é preciso que você entenda a língua que ele fala. A partir de minuciosa análise dos principais ideólogos da nova extrema-direita no Twitter, desenvolvi um glossário do pensamento (neo)fascista brasileiro acerca de conceitos e instituições. Ao lê-los, você certamente irá identificar estas categorias nas falas dos componentes do governo e, se pensarmos na curta duração, essas interpretações já estavam outrora circulando na internet, nos comentários de matérias jornalísticas dos grandes portais e através dos blogueiros engajados:

PATRIOTA: Aquele que apoia a privatização ou a venda de empresas estatais e de riquezas naturais para grupos estrangeiros.

CIDADÃO DE BEM: Homem branco, hétero e de classe média que defende o porte de armas e a sonegação de impostos.

ESTUDANTE: Jovem drogado facilmente influenciável por ideias de esquerda.

PROFESSOR: Doutrinador comunista que promove greves e perversão sexual em horário de trabalho.

UNIVERSIDADE PÚBLICA: Local de balbúrdia onde as pessoas andam nuas, consomem drogas e se deixam manipular por doutrinadores de esquerda.

CIENTISTA: Pessoa que recebe dinheiro público para promover pesquisas sem importância que não geram retorno financeiro.

EMPRESÁRIO: Único profissional responsável pelo desenvolvimento do país, apesar de massacrado pelos impostos do Estado e tolhido pelos direitos trabalhistas.

POBRE: Pessoa que não se esforçou o bastante; vagabundo; procrastinador.

GAY: Pederasta depravado; pedófilo; indivíduo pervertido que ainda não aceitou Jesus.

FEMINISTA: Mulher que não gosta de homem e não depila as axilas.

INDÍGENA: Pessoa que ocupa grandes porções de terra sem pagar impostos, sem trabalhar e sem gerar receita ao Estado. Diz-se também do brasileiro que se aproveita de sua aparência física para requisitar o direito a territórios que, por direito, deveriam pertencer ao agronegócio.

IMIGRANTE: Pessoa estrangeira de má índole, proveniente de países do Terceiro Mundo, que vem ao Brasil para tirar o emprego de brasileiros e estuprar as mulheres (Obs: Não se enquadram nessa classificação imigrantes de pele clara e olhos azuis provenientes de países europeus como Itália e Alemanha).

MOVIMENTO NEGRO: Organização formada por pessoas (de cor) ressentidas que se dedicam a promover o racismo reverso na sociedade; grupo de pessoas (de cor) que não se colocam em seu devido lugar.

MACUMBEIRO: Pessoa adepta a seitas como o candomblé e a umbanda, que cultuam demônios e praticam a magia negra e o sacrifício de animais e seres humanos.

NORDESTINO: Brasileiro nascido ou residente na região nordeste do país e dotado de pouca inteligência, bem como de pouca inclinação ao trabalho. Não obstante, apresenta tendências esquerdistas na política.

DITADURA MILITAR: Suposto período histórico que teria vigorado no Brasil de 1964 a 1985. O mito da ditadura foi inventado por professores de esquerda com o objetivo de desqualificar o governo de militares abnegados e honestos que livraram o Brasil do comunismo.

DEMOCRACIA: Regime de governo corrupto que só beneficia a classe política em detrimento da família, da tradição e da propriedade.

DIREITOS HUMANOS: Organização de esquerda criada para defender criminosos e vagabundos de toda sorte.

DESEMPREGO: Opção de quem não gosta de trabalhar ou não possui a competência e a qualificação exigidas pelo mercado.

MANIFESTAÇÃO POLÍTICA: O mesmo que baderna (Obs: A exceção fica por conta das manifestações de classe média que pedem intervenção militar, feitas geralmente aos domingos e compostas por famílias vestidas em camisas amarelas e portando bandeirinhas do Brasil como prova inequívoca de seu patriotismo).

VENEZUELA: O inferno na Terra. Uma espécie de Cuba com petróleo. República de bananas comandada por uma ditadura sanguinária financiada pela União Soviética e pelas verbas do BNDES durante o regime lulopetista.

ESTADOS UNIDOS: País exemplar para onde todos os brasileiros querem se mudar um dia. Terra da liberdade em que as leis funcionam e a segurança impera porque os cidadãos de bem podem andar armados.

BRASIL: País desprezível formado majoritariamente por gente pobre, ignorante e preguiçosa. Nação historicamente fadada ao atraso e ao subdesenvolvimento devida a pouca capacidade empreendedora de sua população.

BRASILEIRO: Adjetivo pejorativo usado para desqualificar o que quer que seja (um filme, um escritor, um destino turístico, etc). Sinônimo de pobreza, falta de caráter e indolência. “Só podia ser brasileiro mesmo”.

FILÓSOFO: Tipo de pensador inexistente no Brasil, dada a nossa incapacidade de produzir reflexões profundas (Obs: Olavo de Carvalho é uma exceção, podendo ser considerado o único filósofo brasileiro, entre vivos e mortos).

ARTE: Suposta atividade criativa humana que só interessa a uma pequena elite intelectual de esquerdistas pernósticos.

ARTISTA: Indivíduo que se dedica à vadiagem, usando a arte como justificativa para sua condição de sanguessuga do dinheiro público.

CULTURA POPULAR: Arte de pouca ou nenhuma qualidade e importância; coisa de pobre.

MUSEU: Local geralmente público e entulhado de velharias inúteis que não interessam a ninguém.

POLITICAMENTE CORRETO: Designa a conduta criada pela patrulha de esquerda para coagir e constranger pessoas espontâneas que falam o que todo mundo pensa, mas não têm coragem de verbalizar.

EDUCAÇÃO SEXUAL: Disciplina escolar criada por professores esquerdistas para ensinar pornografia às crianças, minando assim os valores da família cristã. Tal disciplina estava contida no famigerado kit gay (que o educador Paulo Freire escreveu a pedido do ministro Fernando Haddad durante o governo Lula e que vinha sendo distribuído nas escolas brasileiras).

TRABALHO ESCRAVO: Lenda urbana inventada pela esquerda com o intuito de prejudicar a imagem de empresários sérios e honestos; todo tipo de trabalho que um esquerdista se recusa a fazer.

SINDICATO: Grupelho de pessoas desocupadas que usa os trabalhadores como massa de manobra para beneficiar eleitoralmente os partidos de esquerda.

IMPRENSA: Designação coletiva dos veículos de comunicação controlados pela União Soviética e dominados pela ideologia marxista-leninista de seus funcionários.

FUNCIONÁRIO PÚBLICO: Pessoa ociosa sustentada pelo dinheiro dos nossos impostos para jogar paciência ou tomar cafezinho em repartições públicas decrépitas e sem muita utilidade.

PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT): Organização criminosa criada exclusivamente para dilapidar os cofres públicos e instaurar o socialismo no Brasil.

SOCIALISMO: O mesmo que comunismo.

COMUNISMO: Regime totalitário de esquerda implantado no Brasil em 2003 e que vigorou até 2016. Historiadores monarquistas sustentam, no entanto, que o comunismo teria sido implantado em 1889, com a Proclamação da República.

ESQUERDISTA: O mesmo que petista.

PETISTA: O mesmo que comunista.

COMUNISTA: Pessoa que não trabalha ou que vive exclusivamente de cargos públicos; indivíduo pervertido que defende a educação sexual para crianças, a ditadura gay e o aborto; ateu de esquerda que se dedica a difamar a Bíblia e a destruir os valores da família cristã.

COMO CONVERSAR COM UM FASCISTA SEM PERDER A SANIDADE?

Se quisermos disputar, é importante saber onde debater. Um debate público pelas redes sociais só é interessante para o fascista de plantão, pois uma explicação científica é “refutada” com um terraplanismo sociológico qualquer, que para o público geral nivela os debatedores.

Os interlocutores não sabem diferenciar o detentor de conhecimento do néscio. Geralmente a reação de quem possui o conhecimento é apresentar os títulos, daí o fascista parte ou para menosprezar a universidade pública ou para argumentar que a esquerda é pedante.  Sem contar que no mundo virtual, em especial no Twitter, eles contam com uma centena de milhares de robôs que agem em bloco, geralmente usando a tática da ridicularização de um argumento. Perfis verdadeiros, muitas vezes por não entenderem do assunto ou para somar ao “seu time”, replicam a ridicularização, levando muita gente a criar uma espécie de autocensura. As redes não servem para conversar ou debater, mas para marcar posição e subsidiar os não extremistas com argumentos e narrativas.

É fundamental, portanto, que não continuemos postando com o fígado cada absurdo propagado pelo governo e por candidatos aos holofotes da extrema-direita, pois assim não damos gatilho para que os algoritmos se propaguem. Para cancelar seu poder de propagação é mais eficiente fazer a denúncia e o bloqueio do que ficar dando palanque e tentando contra-argumentar com aqueles que não tem embasamento científico e filosófico de fato.

Precisamos conversar com o “fascista cordial”. Aquele amigo de infância, colega de serviço, parente mais próximo, fazendo-o se sentir constrangido pelos absurdos que ele próprio propaga. Isso não é difícil.

Uma estratégia que julgo muito forte é criar uma armadilha semântica, pedindo que o interlocutor repita e explique o que ele diz. Se alguém diz, “tem que prender todo mundo que é de esquerda!”, peça que ele explique, pessoalizando o debate: “mas então você quer que me prendam? O que a lei diz?”. Repetidas vezes questionada, a maioria dos fascistas se constrange, tergiversa e termina dizendo para mudar de assunto. O mesmo serve quando lançam mão de um argumento preconceituoso ou um fato histórico errado. Peça calmamente que repita ou que explique, expondo as provas do ele diz. Divirta-se!

Um erro fundamental dos progressistas é julgar que todo eleitor de Bolsonaro é um fascista convicto disposto a assassinar a oposição. O protofascista nem sempre é um sociopata em potencial, ou desprovido de capacidade intelectual nas Humanas. Partir para inflamados ataques de “racista!”, “machista!”, “nazista!”, pode fazer com que cesse o caminho para uma reflexão mínima que faça com que a pessoa se livre de sua reprogramação mental. Importante ressaltar que, como já foi exposto, os fascistas declarados não merecem a consideração de nada mais que o combate franco. Diálogo para a massa de manobra, nunca para os capitães.

Outro erro muito comum no diálogo com fascistas é apelar para a religião, sobretudo quando quem apela não tem lastro na vivência religiosa. Questionar um cristão que faz gesto de arma com as mãos só agrega se quem questiona tiver uma vivência comunitária religiosa amplamente (re)conhecida, igual ou maior que seu interlocutor.

Bolsonaristas típicos não se constrangem com a maior parte das falas do presidente e de seu séquito:

“Vencedor do Nobel de literatura em 1950, Bertrand Russel ganhou notoriedade como defensor da vida criativa, moderna e racional que os totalitarismos de seu tempo (nazismo, fascismo ou stalinismo) ameaçavam. O paradoxo do pensamento de Russel é a base do conceito do chamado ‘efeito Dunning-Kruger’ ou a síndrome do ‘idiota confiante’. Trata-se do distúrbio cognitivo dos indivíduos que ignoram o limite da própria ignorância. O conceito foi criado em 1999 em um artigo publicado por dois psicólogos americanos da Universidade de Cornell, Justin Kruger e David Dunning. ‘A única coisa que a gente sabe é o limite do próprio conhecimento. Se você não entende que a verdade é construção histórica e que o ponto de vista do diferente é essencial para conhecê-la, você se torna um ‘idiota confiante’. Isto é cimento para fundamentalismos’, afirma o filósofo e professor de ética da PUC-PR, Bortolo Valle.” [7]

Uma boa abordagem com um fascista é apelar para os indícios de corrupção através do caso Flávio Bolsonaro e Queiroz, do laranjal do PSL, dos ministros citados em esquemas de propina. Esses fatos, tal como a aprovação do fundão eleitoral ou qualquer coisa vinculada ao que eles chamam de “velha política”, deixam muito mais incômodos nos protofascistas que questões que envolvam conceitos sociológicos, ou desvios de caráter por parte do presidente e do seu núcleo duro no que tange à questão de gênero, homofobia e etnicidade.

Para finalizar, algumas provocações: é possível uma mea-culpa no campo progressista? Será possível conversar com um fascista sem cair na armadilha da defesa inveterada de Lula e do PT? Seria o momento de partirmos para o diálogo reconhecendo os ilícitos de alguns agentes do petismo e ainda assim firmamos posição quanto a ilegalidade da queda de Dilma, da prisão de lula e da atuação política da Lava-jato?

[1] Historiador, especialista em Filosofia Política e América Latina, professor, autor do livro “A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro”.

[2] Onda Rosa é o termo designado pelos historiadores e sociólogos para classificar a recente ascensão de grupos minoritários – no sentido de espaços de poder – que se empoderaram ao assumir suas preferências e a lutar por equidade de direitos.

[3] O Brasil foi um dos casos de maior sucesso da atuação do The Movement, grupo coordenado pelo ex-assessor de Donald Trump, que pretende uma pauta conservadora, antiglobalização, islamismo, marxismo ou qualquer expressão que eles julguem incomodar o desenvolvimento do capital. Como expliquei em meu livro, o método utilizado por eles é capturar pessoas utilizando os algoritmos das redes sociais, fazendo com que fake news conspiracionista sejam vistas como verdades absolutas. Para que isso seja possível, negam a imprensa, a ciência e a filosofia, enaltecendo apenas os ideólogos do seu próprio movimento – aqui no Brasil o mais destacado é o Olavo de Carvalho.

[4] SOARES NETO, Eliezer Brasil. A História que a Gente Viveu – das jornadas de junho à eleição de Bolsonaro. AsM Editora, Macaé – RJ. 2019. Pag. 176

[5] Op. Cit. Pag. 179-180.

[6] Op. Cit. Pag. 71-72.

[7] Op. Cit. 170-171 (grifo meu).

*Comunicação proferida no evento Brunch, no Trapiche Café da Editora Cousa, no dia 07 de março de 2020.

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