A História do Brasil é uma História de sangue – Entrevista | Eliezer Brasil

 Por João Vitor Castro

PROFESSOR há 15 anos, Eliezer recentemente lançou seu primeiro livro e com ele tem ido a diferentes espaços compartilhar sua visão sobre o Brasil atual e os rumos de nossa política. Eliezer Brasil é historiador e especialista em Filosofia Política e América Latina. Aprovado no Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo com o tema “História e Cinema” e justamente no dia 8 de fevereiro o autor participou de um debate no Cabrón Cine Bar sobre o documentário “Democracia em Vertigem”, então candidato ao Oscar, onde foi concedida esta entrevista. Eliezer topou conversar sobre seu livro e, é claro, política.

Logo nas primeiras páginas do livro, você afirma que a História é cíclica. Embora essa frase já tenha se tornado um clichê na boca das pessoas, as interpretações sobre ela são as mais diversas. O que de fato significa dizer que a História é cíclica? É possível interromper os ciclos da História?

Afirmar que a História é cíclica significa dizer que certos padrões podem ser parecidos àqueles que nos antecederam. Todavia é uma armadilha teórica, uma vez que a História é feita de fatos únicos e irrepetíveis. A única forma de evitar as repetições de padrões é se debruçar na própria História, para não repetir os erros do passado.

Presidentes democraticamente eleitos concluírem seus mandatos é uma raridade no Brasil. Além disso, hoje, mais de 30 anos após o fim da Ditadura, parte da direita brasileira ainda exalta regimes como os militares na América Latina das décadas de 60 e 70, enquanto parte da esquerda exalta regimes como o de Nicolás Maduro e até Kim Jong Un. Segundo o Datafolha, em 2019 a aceitação da democracia entre a população brasileira caiu 7%. De onde vem essa aspiração autoritária na população brasileira? É uma herança do regime militar ou antecede? O brasileiro é um povo autoritário ou que costuma ser levado por extremismos?

O nosso autoritarismo antecede a ditadura militar. A História brasileira é uma história de sangue e não de conciliação, como se pensa no senso comum. Nossa forma de se relacionar é através da violência. O “ser homem” no Brasil se expressa pela violência. As periferias são violentas. O aparato estatal de polícia é violento. Fico com Jessé Souza: a origem disso está lá na introdução do escravismo.

Ao falar da eleição de 2002, você afirma que o senso comum que via Lula como incapaz se forma graças à mídia e ao que chamou de “estrutural racismo de etnia e de classe”. Você acredita que, hoje, parte do antipetismo se deve em algum nível a um preconceito de classe, como muitos defendem?

Sem dúvida! O antipetismo reside muito em um preconceito de classe e racial. O pobre e o negro são aceitos em certos espaços sociais e econômicos, mas não em outros. O racismo e o preconceito de classe criam nichos de poder. Por exemplo, se não houvesse racismo estrutural no Brasil, mais da metade das vagas de educação e emprego seriam ocupadas por pessoas negras. Ou seja, seria ainda mais concorrido o curso de Medicina, seria mais difícil ser CEO da empresa… manter o racismo é manter o privilégio da classe média a ter uma empregada doméstica, é manter o privilégio a certos espaços de poder. O grande mérito do PT nesses 16 anos foi iniciar uma leve ruptura nessa bolha. A elite reagiu.

Ao explicar o conceito de esquerda surgido na Revolução Francesa, você afirma que “já naquele contexto percebemos a dificuldade de se manter colado às bases após chegar ao poder”. Esse afastamento das bases é algo que podemos observar em quase todos os governos de esquerda ao redor do mundo, a exemplo da França, da URSS, da China, América Latina e, como não poderia deixar de ser, do Brasil da Era Petista. Por que tantos governos esquerdistas ao redor do mundo cometeram tantas vezes a mesma falha? É possível governar estando sempre atrelado às bases?

Sim! Mas é preciso uma Constituição e um jogo político que permitam uma democracia plebiscitária – onde o povo possua mais poder decisório. É importante diferenciar governar com as bases do discurso populista para as bases. Bolsonaro, através das redes, faz com que sua base acredite que ela está decidindo os rumos do governo através do presidente, mas não está.

Sobre a eleição presidencial de 2014: você acredita que se o PSDB tivesse vencido a eleição o que veio depois teria sido diferente ou o que você chamou de “ovo da serpente” já estava chocado?

Em História não existe o “se”, mas conhecendo bem o Brasil, arrisco a dizer que não estaríamos vivendo essa crise, uma vez que a crise econômica foi gerada pela política e não o contrário. Certamente não teríamos passado por um impeachment.

Ao explicar o biênio 2014-2016, você cita o pensamento de Mark Lilla, historiador e cientista político norte-americano, de que a esquerda assumiu um risco ao se debruçar na pauta das minorias. Você pode explicar melhor essa ideia?

De forma bem explicativa: as causas identitárias das minorias são fundamentais, mas não dialogam diretamente com os anseios da massa: emprego e segurança pública. Eu digo diretamente, pois nós da Universidade sabemos que o fim do racismo e a inclusão melhorariam essas questões a longo prazo, mas o povo também precisa de soluções imediatas e acabou sendo levado pela retórica neopentecostal da preservação da família.

Há uma frase de Marx que diz que a História sempre se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. As tragédias da História do Brasil nós conhecemos. Pode-se dizer que hoje presenciamos a farsa do autoritarismo e do negacionismo? Como interromper esse ciclo da História?

Para interrompê-lo apenas com resistência, tentando recuperar a narrativa que foi roubada pelos revisionistas e negacionistas com o tempo. O fascismo só é derrotado quando governa. O discurso dele é muito sedutor, mas no poder ele é destrutivo. Teremos que sangrar para essa onda passar – espero que apenas no sentido figurado.

Muitos, mais à esquerda, acreditam que tudo o que você narra no livro, incluindo as Jornadas de Junho, foi minuciosamente orquestrado pelas elites corporativas para derrubar a esquerda e levar o projeto conservador ao poder, enquanto muitos, mais à direita, consideram que foi tudo fruto de anseios populares legítimos, autônomos e espontâneos. De qual você está mais próximo?

Acredito que houve um orquestramento das jornadas a partir do momento que foi percebido que muitos ali estavam contra a “política tradicional”. Quando começaram, as jornadas eram manifestações tipicamente à esquerda. Com a ação orquestrada, a esquerda foi expulsa de Junho e as redes sociais da direita começaram a conduzir a manada.

A Operação Lava-Jato, como você mesmo cita no livro, cometeu inúmeras ilegalidades e promoveu ações de conduta altamente questionáveis. No entanto, também cita os avanços e reconhece que nunca antes tantos poderosos tiveram o seu poder ameaçado. Você acredita que se a Lava-Jato tivesse agido em estrita conformidade com o processo legal, ela teria conquistado os mesmos avanços?

A Lava-Jato foi desde o início pensada para quebrar o PT. Não consigo vê-la de outra forma. Tudo fora da esfera petista que ela atingiu foram danos colaterais ou bodes expiatórios jogados para a plateia.

Ao falar do fenômeno do “Lulismo” e trabalhar com a definição de neopopulismo de Kenneth Roberts, você defende que tanto Lula quanto Bolsonaro têm características de líderes populistas. O que une Lula a Bolsonaro?

O personalismo de se colocarem como os únicos responsáveis para realizar certos projetos.

Muitos militantes de esquerda hoje negam o apoio às Jornadas de Junho e consideram a origem de tudo de ruim que aconteceu depois. Como você vê isso? 2013 possui um legado mais positivo ou negativo?

Certamente mais negativo. Mas inseridos no contexto muitas vezes não vemos além da neblina. Só a História é esclarecedora.

Alguns acreditam que Dilma caiu por ser mulher, outros pela incompetência e inoperância, e outros pela integridade de não ter intervindo na Lava-Jato e pela fidelidade aos seus ideais, os quais, diferente de Lula, ela não curvou à governabilidade. Qual você acredita que tenha sido o fator chave?

O fator chave da queda de Dilma foi a ação de Cunha e Aécio para impedir que ela governasse após 2014.

Até 2018, a grande imprensa era odiada pela esquerda, que a chamava de “PIG”, Partido da Imprensa Golpista. Hoje, a direita a chama de “extrema imprensa”, militante e até comunista. Na sua visão, a mídia mudou de postura ou esse ódio de governistas em distintos governos indica justamente a proximidade com a tão sonhada imparcialidade?

Não acredito na imparcialidade. É impossível do ponto de vista teórico. Acredito que a grande mídia brasileira é liberal, a favor de privatizações, mas não é conservadora nos costumes – exceto as empresas ligadas aos evangélicos. Por isso incomoda  tanto à esquerda quanto à direita conservadora.

Enquanto professor de História, você acredita que há algum erro na forma como se ensina a História da Segunda Guerra, e que possa influenciar de alguma forma na dificuldade em se combater o fantasma do nazifacismo? Como essa História deve ser ensinada?

Há um grande erro no currículo de História em geral que privilegia o ensino de fatos e se preocupa menos com a análise e o debate. O projeto Escola sem Partido é, inclusive, propagador do fim do debate e da educação libertadora.

Pensando já em 2022, qual você acredita que seja o cenário? Teremos Bolsonaro candidato à reeleição? Quem disputará os rumos da direita: Dória, Amoedo, Luciano Huck? E na esquerda: o PT chegará ao segundo turno novamente? Onde ficarão Ciro e Marina?

No atual cenário, Bolsonaro é candidato e favorito a 2022. Particularmente só vejo Bolsonaro hoje perdendo para outro projeto de direita. Tudo vai depender se Moro vai sair do armário e assumir que deseja a presidência ou vai se manter fiel a Bolsonaro. Huck, se vier, vai aglutinar a direita liberal e alguns de centro. O PT tem milhões de votos nativos. Nada será viável na centro esquerda sem a benção de Lula, mas julgo difícil uma vitória. Marina e Ciro são coadjuvantes nesse campo, ainda que eu veja o projeto representado por Ciro o mais completo para responder as demandas da atual conjuntura nacional.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *